domingo, 18 de março de 2012

Guerras e muros



Um dos discos mais famosos da história do rock, The Wall, da banda inglesa Pink Floyd, não é cultuado até hoje apenas por sua qualidade musical. Roger Waters, baixista da banda, trabalhou uma série de questões psicológicas e políticas nas letras do álbum temático. No início dos shows da atual turnê de Waters, logo aparecem as referências a seu pai. Uma foto, o nome completo, a data de nascimento e morte. O pai de Waters faleceu na II Guerra em 1944, deixando Roger órfão aos cinco meses de idade.

É estranho talvez pensar em como a morte prematura de um pai, que Waters sequer conheceu, tenha o afetado a tal ponto que se tornou assunto recorrente no álbum. Ficamos sensibilizados com os horrores de guerras quando vemos fotos de crianças na África sem pernas após terem pisado em minas terrestres; em filmes que retratam guerras, como por exemplo, “O Resgate do Soldado Ryan”; no videoclip da canção “Brothers in Arms” do Dire Straits; nos horrores praticados por guerrilhas com crianças. A morte é um fantasma em nossas vidas, mas ainda mais dolorosa para aqueles cujos entes queridos foram vitimados prematuramente, fugindo do curso natural da existência. Se você perdesse seus pais ou irmãos em uma guerra, seria compreensível você criar horror à guerra e suas nefastas consequências. Mas será que para um bebê de cinco meses isso é tão relevante assim? E para aqueles cujos parentes passaram por guerras e sobreviveram? Será a guerra ainda assim traumática de forma indireta?

Não posso compreender exatamente o que se passou na cabeça de Waters. The Wall dá uma boa pista, mas há uma canção que não foi lançada no álbum e que mostra um pouco o quanto a morte de seu pai impactou na sua vida. No filme “the Wall”, lançado alguns anos depois do álbum, temos a canção “When the Tigers Broke Free”. Nesta música, Waters descreve como ele acidentalmente encontrou uma carta do Rei da Inglaterra comunicando a morte do seu pai – escondida em uma gaveta de fotos antigas. Na última estrofe, de forma dramática, Waters descreve da seguinte forma a batalha que vitimou seu pai:

It was dark all around.
There was frost in the ground
When the tigers broke free.
And no one survived 
From the Royal Fusiliers Company C.
They were all left behind,
Most of them dead,
The rest of them dying.
And that's how the High Command took my daddy -  from me. 

“Foi assim que o Alto Comando tirou meu pai de mim”. Evito utilizar o pronome “lhe” na minha tradução livre para enfatizar a dor que lhe causou a morte de seu pai, como ele próprio enfatiza no fim da canção, seguido de um silêncio repentino ensurdecedor. Provavelmente essa dor não foi lhe passada diretamente, mas o modo como tais acontecimentos afetaram sua mãe e demais parentes certamente não lhe passou despercebido. Nossas ligações emocionais com nossas famílias não permitem que escapemos da dor que ali convive à espreita, como um fantasma morto que nos assombra. Ela aparece, por exemplo, quando vemos como nossos pais lidam com situações limítrofes que nos afetam. (In)felizmente, temos uma forte capacidade empática de perceber a dor das pessoas próximas. Não é para menos que histórias de nossos avós ou pais nos emocionam, mesmo quando ocorreram em um passado distante, antes mesmo de nascermos. 

Talvez por isso a guerra seja tão horrível. Os custos da guerra não se resumem ao impacto sofrido por quem viu a guerra e recebeu a notícia da morte de parentes e amigos. Essas dores perduram nas gerações seguintes, mesmo quando não se tocam nesses assuntos, justamente devido à dor que causam. Os traumas de nossos pais fazem com que eles próprios, para se protegerem, se distanciem de si mesmos. Esse processo de distanciamento de si próprios impede que eles dividam suas dores com os outros, mesmo com seus filhos. E, assim, nos distanciamos de nossos pais e até de nós mesmos, porque aprendemos em casa que não é bom se aproximar de si mesmo e lidar com suas próprias tristezas e alegrias.

Waters perdeu o pai na guerra. Mas quanto sua mãe também não morreu com isso? O quanto ele próprio não perdeu a si mesmo ao ver seus entes mais queridos se distanciarem de si mesmos para se protegerem? Não é à toa que o disco se chama “The Wall”. Não é à toa que construímos muros em volta de nós mesmos. Meu pai sobreviveu ao totalitarismo comunista e à Guerra da Coreia, minha mãe sobreviveu às péssimas condições de vida em um país destruído por uma sangrenta guerra civil. O quanto deles eu perdi com a guerra? E o quanto eu perdi de mim mesmo? Quão alto é o muro que criamos entre nós e o mundo?

“Mother, did it need to be so high?” (“Mother”, Pink Floyd - The Wall)