domingo, 28 de junho de 2009

Schneeballschlacht?

Na última vez que escrevi sobre alemães, ressaltei apenas os pontos negativos e, na verdade, bizarros de minha passagem por aquele país. Recebi inúmeras cartas e comentários achando estranho que eu não tivesse gostado da Alemanha (como se fossem inúmeros os visitantes e fãs deste blog). Evidentemente, o que escrevi foi uma injustiça e acabei sendo mal-interpretado. A Alemanha é um ótimo país para se visitar e além de encontrar alemães excêntricos mencionados em um post anterior, encontrei também muitas pessoas das quais guardo excelentes lembranças.

Cruzei a Alemanha de norte a sul e de leste a oeste na primeira semana de advento em dezembro – acho que conheço muito bem os percursos da Deutsche Bahn (a empresa de trens). Houve um dia em que, para espanto de alguns, parei em Remscheid, cidade próxima a Köln, ou Colônia em bom português. Conhecia o grupo de jovens da igreja evangélica (a igreja territorial local uniu luteranos e reformados) em Remscheid porque eles tinham visitado o Brasil meses antes. Ficaram algumas semanas em Limeira e vieram para São Paulo em uma tarde de sexta-feira para conhecer o trabalho da Paróquia São Paulo – Centro com moradores de rua. Fiquei em contato por e-mail com um dos líderes do grupo, o jovem Jan, ainda terminando seus estudos secundários, um cara muito gente boa. Quando eu o avisei que estava indo pra Alemanha, ele imediatamente ofereceu-me sua casa e pude ficar dois dias e meio em sua cidade, Remscheid.

Como mencionei, de repente eu estava ali em Remscheid. E foi lá que eu realmente vi neve em generosas quantidades pela primeira vez. Na Suécia, eu vira neve suja no chão e uma bola de neve trazida por um pequeno sueco que a guardara no congelador por uma semana para que o brasileiro aqui pudesse ver. Na Noruega, estava frio e escuro, mas não tinha nevado. Em Neuendettelsau, ao sul da Alemanha, conheci o tal do Schneeregen, algo que parece neve, mas molha irritantemente e tem pouca consistência. (Aliás, Schneeregen segue a velha lógica germânica: Schnee significa neve e Regen, chuva. Nada mais apropriado para algo que não é chuva nem neve). Em Remscheid, acordei e estava tudo coberto de neve (apenas Schnee). Fui à escola com Jan e Juliane, sua simpática namorada, de pai italiano e mãe alemã. Ao nos aproximarmos da escola, flocos caíam sem pressa alguma de se encontrar com o chão esbranquiçado e percebi que as crianças já tinham armado uma guerra de bolas de neve logo antes da aula.

Assisti a uma aula de inglês e pude ver a abissal distância que há entre as aulas de inglês em um Gymnasium alemão e nossas melhores escolas. Comparativamente às outras escolas particulares de Porto Alegre, o inglês que tive no Colégio Militar era muito superior. Entretanto, o nível da discussão nessa escola alemã estava alguns andares acima do que eu tivera em meus tempos de ensino médio. Há uma diferença fundamental, é verdade: o Gymnasium é uma escola destinada àqueles que vão cursar universidades e, assim, é natural que essa escola tenha uma qualidade muito superior, uma vez que já foi feita uma seleção entre os alunos. Além do Gymnasium, há ainda mais dois tipos de escolas destinadas a ensino mais técnico do que acadêmico (ou seja, para os que não eram bons alunos). Um sistema talvez um pouco injusto porque pune excessivamente os erros passados, mas provavelmente eficiente, como os alemães geralmente costumam ser.

Mas além dessas constatações sociológicas, a parte mais legal de minha visita à cidade foi conhecer a igreja local e o belo espaço reservado aos jovens. No espaço grande, com cozinha e tudo, fizemos algumas panquecas, além é claro de jogar um pouco de tênis de mesa e conversar. No dia seguinte, fomos visitar os jovens da cidade vizinha, que também estavam no grupo que veio ao Brasil. Fui recebido de forma muito mais amistosa do que supunha por pessoas que tinham conversado comigo por apenas uma tarde. Conversamos comendo raclette e gastamos boas horas ali falando sobre a vida, até que todos decidiram, é claro, que era hora de uma guerra de bola de neve. (Sigamos novamente a lógica germânica: bola de neve obviamente é Schneeball. E, como Schlacht é batalha ou luta, a guerra de neve é Schneeballschlacht - que língua prática, assim é fácil operar a HP12C). E, mais do que isso, eles decidiram que eu precisava fazer meu primeiro boneco de neve (sigamos a lógica germânica: Schneemann). Foi divertido ser a criança que nunca pude ser por viver em um país que não neva.

Jan e seus amigos ainda me levaram para patinar no gelo em um dos dias. Foi no mínimo desastroso e agradeço a Deus por não ter perdido nenhum membro, que poderia ter sido cortado pelas lâminas de patins alheios de crianças que patinavam esbaforidamente. Talvez tenha sido curioso para elas ver um rapaz de 23 anos de feições orientais ter dificuldades imensas para andar mais do que alguns metros sem despencar no chão de gelo. Por sorte, não houve ferimentos comprometedores.

Deixei por lá alguns presentes e uma infinidade de agradecimentos. Baguncei a vida deles por uns dois dias, mas tenho certeza que eles gostaram de receber um irmão da igreja no Brasil. E eu posso dizer o mesmo. É bom se sentir em casa mesmo estando tão longe. De certa forma, não deixa de ser em casa, quando estamos na casa do Pai com irmãos. Como dizia a música que costumava cantar em minha adolescência na igreja, é “onde o céu toca a terra [...] que chega a verdadeira paz”.

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Odores e sabores

"A memória dos odores é muito rica", disse John Steinbeck no começo de um de seus mais famosos romances, mas eu acrescentaria também a memória dos sabores que as acompanham. Ontem mesmo, tive uma experiência nostálgica ao sentir o fumegar de uma sopa oriental que minha mãe costumava preparar para mim, saboreando-a em seguida com uma satisfação quase infantil.

Recentemente estive me Genebra em mais uma reunião do Conselho Mundial de Igrejas (CMI). Debatíamos que posicionamento deveriam as igrejas tomar diante da atual crise mundial e, nos intervalos, degustamos as refeições do hotel onde nos encontrávamos. O sabor era bom e os pratos eram esteticamente perfeitos, como se a beleza fosse mais importante do que a capacidade de matar a fome. A quantidade não era generosa e era exatamente o que deveria ser: apenas mais uma refeição de restaurante chique. Refeições caras que nos tornavam até hipócritas diante de nossas discussões sobre os nefastos efeitos da crise mundial sobre os pobres.

Lembrei da reunião que o CMI promoveu em Cuba, em um seminário teológico em Matanzas. Estou muito longe de ser fã da ditadura cubana - pelo contrário. Contudo, senti-me muito bem recebido em meio ao povo cubano. Lembro-me das refeições simples, com seus sabores e odores caseiros, com seus temperos particulares da região, preparadas por diligentes e simpáticas senhoras cubanas, provavelmente voluntárias. Também almoçamos em uma igreja presbiteriana em Havana, onde recebemos generosos pratos - comida feita pela comunidade. Não sei exatamente por que, sentia-me realmente bem durante aquelas refeições. Os cubanos infelizmente são pobres e, conseqüentemente, não podem nos oferecer iguarias em restaurantes. Mas pensando bem, prefiro essa refeições caseiras e simples.

Algum outro dia reclamaram quando descrevi minhas incursões a restaurantes em Oslo, durante uma outra reunião, desta vez no inverno escandinavo. Patrocinados pela rica Igreja da Noruega, saboreei peixes de sabores diversos com deliciosos acompanhamentos tradicionais de Natal. Novamente, esbáldavamo-nos em gula em meio a uma reunião de igreja. Nesses momentos, como também após dias de bandejão da USP ou de restaurantes chiques aqui mesmo no Brasil, a comida simples da mãe distante, com seus sabores e odores característicos, voltam à memória. Uma sensação de nostalgia se abate.

Após meses em São Paulo sem voltar pra casa em Porto Alegre, alguns conhecidos foram comigo aproveitar um fim de semana com promoções em restaurantes de São Paulo. Depois de esperar em filas, entramos em um aparentemente fino restaurante de cozinha espanhola. Novamente, refeições estéticas, quantidades mínimas, ambiente excessivemente artificial, todos reclamando dos pratos. Boa companhia, é verdade, mas nada como as paredes da sala de jantar em Porto Alegre ou como as refeições caseiras cubanas. Nem com meros salsichões na fogueira é possível comparar, como fiz na Suíça com meus amigos no alto de um monte com vistas para os Alpes, no dia subsequente às culinariamente finas reuniões do CMI. 

A refeição ceseira bem feita em ambientes que nos sentimos acolhidos e participantes sempre me parece melhor. A memória dos odores e sabores se associa a todos os outros sentimentos de satisfação nesses ambientes. Pelo menos em parte, Steinbeck tinha razão.

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Fazer por merecer

Prestei meu primeiro concurso aos 11 anos de idade. Concurso difícil para entrar na melhor escola de Porto Alegre, o Colégio Militar. Comecei a estudar dois meses antes da prova em casa com a ajuda de minha mãe que sentava comigo e estudava matemática todos os dias, enquanto muitos estudavam desde o início do ano em cursos preparatórios. Em um sábado, fomos conferir o resultado final do concurso no portão do colégio. Eu e meu pai. “Thomas Hyeono Kang – 4º lugar”. Olhei com meu pai com expectativa, lembro até hoje. Ele disse “poderia ter sido 3º, aí entraria no pódio”.

Não vou culpar meu pai, ser humano como qualquer outro, e que tentou dar o melhor para seu filho, assim como a minha mãe. Eles amam a sua maneira, sem conseguir demonstrar diretamente, uma doença bem comum entre pais orientais. De qualquer forma, até hoje cobro demais de mim mesmo. Decepciona-me profundamente ter feito algo sem o devido cuidado ou perceber que sou incapaz de algo. Hoje, meus pais não exigem muito de mim, basta eu. E assim ocorre com muitas pessoas. Conheço muitos casos mais extremos e, embora reconheça que esse tipo de exigência tenha suas vantagens (acho que sou relativamente saudável), percebo que o custo é alto para alguns.

A avidez com que olhei para meu pai, esperando o sinal de aprovação dele não deixava de ser o desejo de ser aceito. Em nosso mundo, em que a noção de justiça se baseia no mérito, queremos ser aceitos porque fizemos algo. Queremos fazer por merecer, inclusive o amor de pais, irmãos, amigos e namoradas. E por acreditar que não preenchemos as expectativas (nossas e dos outros), não conseguimos amar a nós mesmos.

Fui criado sob uma educação evangélica, em que me sentia obrigado a me portar como nossos pais e a nossa comunidade esperava que eu me comportasse. Como não conseguimos sempre nos comportar como esperam, carregamos nossos pecados com amargor, escondemos aqueles sentimentos que nos envergonham. A comunidade, a família ou os amigos, todos lançam um olhar julgador. É por isso que talvez os lugares mais hipócritas do mundo sejam justamente as igrejas, cuja essência deveria ser a pregação do Evangelho, mas que acaba transformando tudo numa lei opressora que joga a culpa em cima de nós e nos tira a possibilidade do perdão e da graça. Cria pessoas doentes que não conseguem se perdoar a si mesmas, quanto mais serem perdoadas por Deus.

Por muito tempo pensei no que deveria fazer para sentir a presença de Deus. Novamente, fazer algo, achar uma receita, fazer por merecer. Quando expus a um amigo suíço meus problemas quanto a isso, enquanto caminhávamos na escuridão em Bern, ele olhou e disse “não tente acreditar em Deus”. Em resposta ao meu olhar estupefato, ele continuou: “não tente agarrar-se a Deus com todas as forças, não o torne um objeto. Deus se relaciona conosco, deixe ele dar o primeiro passo”. É Deus que vem, não nós que fazemos algo para merecer encontrá-lo.

Lutero por muito tempo também tentou merecer o amor de Deus, assim como muitas vezes tentamos merecer o amor de nós mesmos. Lutero se penitenciava, batia em si mesmo por causa de seus pecados. Mas não conseguia parar de pecar e a situação só piorava. Quando ele percebeu que o amor de Deus é incondicional, que mesmo em pecado Ele está com a gente, que ele não quer seres perfeitos, mas pessoas que o sigam, ele pôde parar de se torturar.

Ao tentarmos merecer o amor de nós mesmos, dos outros e de Deus, caímos em um círculo vicioso. Jesus disse-nos que devemos amar os outros como a nós mesmos. Sentimos pena de nós mesmos, não nos sentimos merecedores de nada e ficamos centrados apenas em nosso ego ferido. Esquecemos de olhar para o próximo.

Philip Yancey, um excelente autor cristão (um dos poucos bons, diga-se de passagem), costuma dizer que é cristão apesar da Igreja. O Deus que conhecemos nas igrejas costuma ser julgador e ameaçador. Mas não é esse o Deus trazido por Cristo. Cristo conta-nos a parábola do filho pródigo, que após pegar a herança do pai, esbanjá-la irresponsavelmente e se perder na vida, volta para casa pedindo para ser escravo do pai, uma vez que não merecia ser seu filho de novo. O pai, ao ver isso, não o condena, nem exige algo para que ele recupere sua condição de filho. Ele o abraça e o recebe como filho novamente. Não precisamos fazer por merecer para sermos amados.

“Pecca fortiter”, dizia Lutero. Peca com coragem, sabendo que a graça é maior, que Deus perdoa. Não significa que agora saímos pecando deliberadamente. É apenas um chamado para olharmos a vida com coragem, porque acabaremos pecando como qualquer ser humano, mas que Deus está conosco mesmo sem merecermos.  Espero eu, no futuro, conseguir fazer meus filhos entenderem que são amados, mesmo quando não correspondem as expectativas. Afinal, a graça encontra beleza em tudo, como diz a música do U2. 

domingo, 26 de abril de 2009

Ânimo em meio à turbulência

Recentemente andava extremamente desanimado com a quantidade de pequenas e grandes tarefas que se avolumavam para mim em São Paulo. As obrigações de mestrando, que já são suficientes para ocupar uma vida, somavam-se à preocupação com as monitorias para os alunos da graduação e ao projeto junto ao governo do Estado em que tenho trabalhado. Como se não bastassem, compromissos com a Igreja adicionavam ainda mais peso.

Mais do que pelas horas de trabalho, o que mais me deixa nervoso é a perda de foco e concentração devido às muitas atividades pequenas. Também a percepção da incapacidade de fazer tudo como deveria ser feito é exasperante. Um certo perfeccionismo e talvez uma excessiva exigência em relação ao próprio desempenho deixam uma pessoa enfurecida quando se percebe que, mesmo dedicando todo o tempo disponível para as atividades, é impossível executar tudo com excelência.

Incomoda-me profundamente também que algumas de minhas atividades são enfadonhas ao extremo. Outras ainda, como a monitoria, são até agradáveis. Mas com a falta de concentração e tempo, é impossível estar sabendo a matéria tanto quanto os alunos esperam (ou tanto quanto eu gostaria de saber para me sentir realizado). Não consigo não me importar com trabalho mal feito, seja devido às minhas próprias exigências, seja devido às supostas exigências dos outros. E assim, com o tempo escasso restante, fica difícil estar satisfeito com a própria dissertação, ao pensar no quanto ela poderia ter melhorado não fossem os outros afazeres. As atividades da igreja recentemente têm me prejudicado, talvez por que eu mesmo exijo de mim mais do que realmente posso contribuir. E no fim das contas, mesmo minha espiritualidade vai para o saco com a falta de tempo. Muito trabalho, pouca reflexão, vida vazia. Jesus já alertara Marta sobre isso.

Não abri mão, no entanto, de atividades de lazer com amigos no fim de semana. Importante, é verdade, principalmente quando me conformo por um momento que não conseguirei fazer tudo como quero. Fácil então se entregar na hora de se decidir pelo lazer e, também, pelo erro do excesso de lazer. E assim, também não consigo descansar de fato. Descanso a mente, mas não o corpo.

Abri agora pouco um livro de teologia, enquanto não conseguia dormir pensando em tudo que preciso fazer. Bonhoeffer, meu guru teológico, fala das últimas e penúltimas coisas. Não vou explicar. Mas isso me fez pensar na minha semana vindoura. Um pouco de ânimo surgiu e alguma vontade por disciplina.

Vou fazer o que puder. Lembrar que o projeto junto ao governo, embora chato ao extremo, é útil e ajudará pessoas necessitadas. Jesus sempre falou dos pobres e somos chamados realmente a ajudá-los – por amor e para preparar o caminho para que a graça chegue a todos. Tentarei ajudar meus alunos da monitoria. Deveriam ter um monitor melhor, não alguém que busca aprender a econometria que não estudou na graduação. Mas não posso fazer mais do que posso. Meu esforço não pode ser apenas para que eu consiga me sentir bem, mas como serviço ao próximo. Não posso querer ser competente e esforçado apenas para reforçar meu ego, nada é mais angustiante que isso, porque o ego é ganancioso.

Talvez aí Deus me ajude. Preciso escrever um texto para o Conselho Mundial de Igrejas e milhões de idéias vêm a minha cabeça. Mas de que maneira estarei servindo a Cristo? Se não conseguir enxergar isso no dia-a-dia, como escreverei sobre isso? Certamente, estarei mais apto a escrever quando meu ódio ao mundo se desvanecer e amá-lo do jeito que ele é, com todos os seus defeitos. O que vejo de errado no mundo deve continuar sendo visto como errado, mas a minha reação não pode ser daquele que se sente pessoalmente incomodado. Não pode ser uma resposta raivosa e vingativa, para quem o mundo incomoda por não satisfazer meus desejos egoístas. A injustiça existe e minha reação deve ser de amor a esse mundo, onde Deus quer que sinais de graça estejam presentes. Não pode ser o desejo de puni-lo simplesmente, de revoltar-se contra tudo.  Agredir com raiva o que existe não leva às pessoas a mensagem da graça e do amor de Cristo pela humanidade. Talvez, por isso, não posso enxergar minha semana com raiva.

quinta-feira, 9 de abril de 2009

Notas sobre a Suécia

Escrevi sobre todos os países pelo qual passei em fins do ano passado, à exceção da Suécia. Injustiça com os suecos, outro povo que consegue, sabe-se lá como, manter elevado padrão de vida para a sua população. Diferentemente dos noruegueses, são mais parecidos com o que temos em nossa imaginação. São mais fechados, apertam mais seus casacos durante o frio, escondem-se em suas casas em meio à neblina. Foram gentis, mas um pouco frios.

Cheguei direto vindo de Oslo, onde tinha conhecido belas gurias. Kil (pronuncia-se Xil) é uma pequena cidade no interior, onde meu amigo Mattias é pastor. Estávamos perto de Karlstad, na região oeste da Suécia, onde a secularização estranhamente não é tão forte. Mattias é um cara legal e me levou pra conhecer os lugares e conversar um pouco, além de me oferecer um colchão. Conversa pouco mesmo, o assunto às vezes acaba, ele é o típico esterótipo do pastor sueco. Pela manhã, fomos a uma das igrejas em que ele trabalha. Curiosamente, lápides cercavam a igreja. Nos jardins, ao lado da porta, em todo o lado. Cemitérios na Suécia ficam realmente junto à igreja, um costume no mínimo interessante. Despedi-me à noite e parti em direção a Estocolmo.

Logo que cheguei em Estocolmo, dei de cara com um "Welcome to Stockholm, the capital of Scandinavia". Arrogante talvez, mas de fato Estocolmo é a maior cidade da região, com cerca de 1,5 milhão de habitantes espalhados em uma vasta área coberta por trens e metrôs. Minhas amigas Jenny e Elin lá me esperavam e, assim, fui recebido na casa da Jenny com uma bela refeição tipicamente sueca. Rena, batatas e um monte de coisas que nunca saberei o que eram.

Jenny tem dois irmãos. Uma quase nem falou comigo (estava um pouco doente), enquanto o outro, um piá de 9 anos, estava nitidamente envergonhado com a minha presença. Aos poucos, ele começou a falar inglês de forma surpreendente. É triste quando você percebe que suecos de 9 anos falam inglês tão bem quanto você e isso é normal. E quando ele tem 20, como um cara que eu encontrei no trem, ele tem o inglês dez vezes melhor que o seu. Tudo bem, o cara que eu encontrei no trem estava lendo Paulo Coelho em sueco e foi assim que começamos a conversar, mas ele era gente boa. Voltando ao moleque, ele se soltou, mas sumiu em direção à cozinha. Minutos depois, enquanto notícias sobre hockey apareciam na TV sueca e passávamos para o canal finlandês, o irmão de Jenny reapareceu. Ele, o pequeno Martin, trouxera consigo uma bela esfera branca que ele segurava com as duas mãos. Uma bola de neve.

Olhei pasmo para a bola de neve que ele estava me oferecendo como presente. Jenny explicou que Martin soubera que um brasileiro vindo da selva e que nunca vira neve estava chegando pra passar dois dias na casa deles. Com medo que não nevasse na semana que eu chegasse (o que de fato se confirmou), ele fez a bola de neve na semana anterior e guardou no congelador. Uma surpresa divertida definitivamente. Crianças muitas vezes nos fazem rir de forma realmente espontânea.

Passeei por Estocolmo e vi que a cidade era bonita, embora estivesse frio e infelizmente escuro. Mulheres bonitas também, mas não como as norueguesas simpáticas e lindas de Oslo. De qualquer forma, pude conhecer um pouco dos costumes de Natal da Suécia, suas atividades e costumes. Assisti inclusive um espetáculo musical de Natal em uma igreja velhíssima de madeira e pude cantar hinos em sueco. Um costume muito comum entre os suecos é cantar em conjunto. Algo da igreja que ainda restou no costume, embora Deus há muito já esteja enterrado para a maioria deles. Uma pena: belos hinos que poucos ainda cantam de coração.

Amigos meus estão na Suécia agora e talvez possam contar melhor o que ocorre por lá através desse blog, mas eu espero um dia poder voltar e ficar mais tempo por lá e aprender mais sobre esse curioso povo.

segunda-feira, 23 de março de 2009

A lenta marcha de Cuba

Ondas calmas de um límpido mar azulado chegam à praia harmoniosamente: enquanto algumas ondas quebram na areia de Varadero em Cuba, outras começam a se formar. E assim se segue sucessivamente. Absurdamente azul esse mar, penso eu. O que explica mesmo o azul que vemos na água? As aulas de física perdidas em algum canto do cérebro não se recuperam. Definitivamente não entendo porque enxergo meus pés na água transparente ao meu redor, enquanto que levantando ligeiramente a cabeça, tudo passa a ter um tom forte de azul.

Afastando-se da praia, está o estranho mundo dos habitantes de Cuba, começando pelo hotel. O setor de turismo recebe viajantes do mundo todo, que gastam seus euros e dólares no país, deixam um pouco de gorjeta e permitem que um garçom de hotel ganhe mais do que um médico muito bem formado em Cuba. Um pouco mais adiante, na porta da rua, charutos e garrafas de rum são precificados com a moeda para turistas, diferente da moeda local do dia-a-dia do cubano. Subitamente, um carro da década de 50 com pintura impecável passa por nós. É um milagre que esteja andando. Não obstante, outros carros da mesma época e alguns Ladas passam em seguida. Depois da Revolução em 1959, importar carros de países capitalistas se tornou praticamente impossível. Da entrada do hotel, entro no ônibus escolar de decênios atrás, que nos leva até o Seminário Teológico de Matanzas. É lá que a Comissão das Igrejas em Assuntos Internacionais, importante estrutura do Conselho Mundial de Igrejas, se reúne em março de 2009. 

A pobreza está em todo lugar, mas não uma pobreza de pessoas sem educação.  Com pinturas desfeitas nos prédios e falta de infra-estrutura, é verdade, mas com pessoas instruídas, mesmo vivendo em condições complicadas. Nossos irmãos da Europa Oriental, embora reconheçam o papel nefasto do embargo norte-americano e a abertura muito maior do regime cubano em termos relativos, lembram de seus tempos de opressão comunistas. Alguns africanos e latino-americanos olham com esperança para Cuba, querendo crer na solidariedade socialista e identificando-a com a ética cristã. Ingênuo, provavelmente. 

Músicos do fantástico coro da cidade de Matanzas, após venderem seus CDs para nós, batem papo comigo. Segundo eles, as pessoas não se importam muito com a política. O que as incomoda é a falta de dinheiro e bens essenciais. Gostariam de mais abertura, maior acesso aos mercados, mas valorizam seu bom nível de educação e sua saúde, resultado das políticas que vieram após a Revolução. A tirania de Fidel significou melhora na vida de muita gente. No entanto, isso não muda o fato dele ser um ditador e decidir os rumos do país como bem entende. 

A música faz parte da vida deles: a qualidade é impressionante. Fazem festas o tempo todo, são muito receptíveis e amáveis. Mudanças constitucionais no início da década de 1990 permitiram a volta oficial da religião em Cuba. Nas igrejas históricas em Havana, comunidades muito ativas prestam culto. Que continuem as mudanças. Que os mercados possam chegar a mais pessoas, que os Estados Unidos derrubem esse danoso embargo comercial. Que os cubanos não percam suas conquistas em educação e saúde nesse processo de abertura. Que Deus esteja com Cuba nessa lenta marcha em direção ao desenvolvimento. Amém.

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Livros

Cresci lendo livros. Não porque eu assim o quisesse, mas porque fui literalmente obrigado pela minha diligente mãe. Na época, assim como hoje, era um cara bem preguiçoso. Mas com o estímulo de minha irmã, que definitivamente não é preguiçosa, a leitura constituiu-se um hábito e até um gosto depois de algum tempo. Era um bom passatempo, tanto que li coisas que não deveria ter lido (não, não lia histórias eróticas, embora o início da adolescência seja hormonalmente pérfido). Talvez 13 anos não seja a melhor época da vida para ler A Morte de Ivan Ilitch ou um monte de outros livros que acabei lendo e não aproveitando coisa alguma...

Depois de um tempo, livro não era apenas gosto. As recompensas por ser uma “pessoa que lê” (grande merda) apareceram. Somado ao bom desempenho em sala de aula, a leitura tornou-se um dos pilares de minha auto-estima intelectual, um alimento à vaidade, um meio de se tornar superior aos outros na eterna competição em que vivemos aqui nesse mundo. A leitura era uma bela arma em conversas de boteco, um meio de mostrar erudição. Eu já lera quase tudo (ou ao menos pensava isso) e foi talvez aí que perdi muito do gosto pela leitura. Lia para dizer que li, não pela leitura em si. Em suma, a leitura se tornou um meio de ser mais bem aceito pelos outros.

No entanto, ainda restava alguma coisa do velho Thomas que gostava de ler. Alguns livros, que por acaso pegamos em um dia enfadonho de verão, marcam nossas vidas de alguma forma e fazem-nos voltar a querer ler avidamente em busca de respostas a perguntas que fazemos a nós mesmos. Quando temos preguiça de ver muitos filmes, o livro é um dos poucos meios restantes de se sentir identificado com algo ou alguém, de pensar em idéias novas, de abrir um pouco a cabeça.

Talvez John Steinbeck tenha sido um divisor de águas. Em um domingo qualquer, a biblioteca da igreja estava doando livros velhos. Um volume amarelado (tanto a capa quanto às páginas) de uma velha tradução de A Leste do Éden me pareceu atraente: aquele cheiro inconfundível de traças, digno de um antiquário.  Tendo apenas ouvido falar desse autor americano e que descobri depois que ganhara o Nobel, guardei o livro por anos em uma estante acumulando um bocado de pó. Enfatuado em um dia quente de férias na cidade, resolvi pegá-lo e espirrar um pouquinho no calor. Tenho um pouco de pena até hoje de tê-lo emprestado e perdido aquela tradução da década de 40, embora tenha feito alguém mais ler Steinbeck, um dos meus deveres nesse mundo. Após uma chuvarada na mochila de meu amigo, recebi de volta uma tradução mais nova e pior. Felizmente, existe outra nova tradução que aparentemente é boa.

A partir desse livro, Steinbeck conseguiu me deixar uma impressão profunda, apesar de meu excesso de racionalismo frio. É um autor que fala de sentimentos comuns a todos. Seus personagens são pessoas simples, mas sempre mostrando de forma clara as paixões de qualquer ser humano. A busca pela aceitação, presente em todos, mesmo adultos maduros, aparece no comportamento dos personagens ao longo de todo o livro. Uma coisa engraçada para alguém que também através da leitura buscava um pouco de aceitação.

Evidentemente, outros livros ficaram na minha cabeça antes e depois. Não posso deixar de fazer um tributo ao Mundo de Sofia (acho que muitos gostam desse livro), que eu folheio até hoje quando vai-lá-Deus-saber-por-que procuro informações sobre algum filósofo e não posso, não consigo ou não quero ler o original. O Contraponto de Aldous Huxley (aquele do Admirável Mundo Novo) também me fez pensar, assim como alguns livros teológicos que mudaram meu jeito de entender a fé, essa coisa tão estranha que alguns ainda insistem em ter.

É preciso alguma maturidade para ler e entender livros. Não que eu seja maduro, mas alguns livros exigem vida prévia. O problema é que, até que alguns livros realmente falem contigo, é preciso que a leitura tenha se tornado um costume (pelo menos para os preguiçosos de natureza como eu). Quem me dera ter lido Crime e Castigo depois de ter entendido o que é a idéia cristã da graça: aquilo que só depois de 22 anos freqüentando uma igreja luterana, arauto da graça, eu entendi com clareza como algo concreto na minha vida.

Talvez devesse ler Crime e Castigo de novo agora. Não tenho certeza, mas acredito que só sabendo com clareza o que é graça é possível entender direito esse livro. Deve-me faltar algo, mas eu não entendo porque esse livro é tão famoso se a idéia mais fundamental do livro é pouco popular. Crime e Castigo não acaba na culpa – esta sim comum a todos -, e talvez por isso, o livro não tenha um bom título:  parece faltar um pedaço. Mas não se preocupem, longe de eu querer ser maior que Dostoievski.