quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Dança da chuva

Era um belo fim-de-semana na primavera suíça. Após uma exaustiva semana de reuniões promovida pelo Conselho Mundial de Igrejas, em que discutimos assuntos como a crise econômica mundial, decidi visitar meus bons amigos suíços Daniel, Alena e Tobias. O casal Alena e Daniel há pouco tinham tido uma filha, a pequena Amèlie, motivo de alegria para todos.

Como era um belo dia, meus amigos decidiram que deveríamos levar uns salsichões e fazer uma fogueira no alto de um morro nos arredores de Bern, já dentro dos limites do município de Ostermundigen. Após uma longa caminhada morro acima, de onde enxergávamos o vale todo abaixo, encontramos gravetos para assar os salsichões, enquanto Amèlie fazia barulhos sentada sobre o lençol estendido no chão. Fogueira feita, salsichões espetados: tudo nos conformes com uma conversa entre amigos.

As nuvens começaram a se adensar quando decidimos voltar e os pingos de chuva começaram a cair aos poucos. Resolvemos parar em um charmoso café no meio do caminho de volta. Enquanto sorvíamos nossos chocolates quentes dentro da velha construção de madeira e o volume da chuva aumentava, Daniel se lembrou da situação de uma conhecida próxima em meio a uma conversa. Ela estava passando por um doloroso processo de divórcio: essa pessoa finalmente pensara que tinha encontrado a pessoa certa, mas mais uma decepção ocorrera. Tobias também a conhecia e apenas suspirou, assim como Alena. Daniel então refletiu: “Sabe, o problema fundamental não é achar a pessoa certa, mas sim o amar a si mesmo”. Como sempre, a sacada de Daniel me surpreendeu, apesar de sua aparente simplicidade bíblica e psicológica. Esperei ele concluir: “Desde que você se ame, algum relacionamento vai adiante. A questão não é tanto encontrar a pessoa certa”.

Nunca digiro esse tipo de reflexão rápido. Ainda havia indícios de chuva, mas decidimos arriscar ir embora, afinal a bochechuda Amèlie estava protegida com uma capa de chuva feita para seu carrinho de bebê. Ainda longe do nosso destino, o céu desabou novamente e, sem alternativas para se proteger, Daniel e Tobias resolveram fazer uma “dança da chuva”. Alena empurrava o carrinho rindo de seu marido e de seu amigo loucos e alegres gritando e urrando enquanto giravam no ar suas camisetas encharcadas. Permaneci ao lado dela achando graça também, mas não participei do momento.

Enquanto eles pulavam, perguntei-me a mim mesmo o quanto eu tenho me amado na correria de minha vida. Há alguns anos eu provavelmente estaria gritando com eles se aparecesse a oportunidade. Algo ocorreu nesse meio tempo e percebi que precisava recuperar o tempo perdido.

Voltei para São Paulo e esqueci de quase tudo que pensara naquele momento. Mais uma vez, o turbilhão da vida paulistana me atropelara sem ao menos eu tomar consciência do fato. Mas aos poucos a gente reaprende. O filho pródigo sempre pode voltar para casa.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Uma ficção chamada Barcelona

La Rambla de Barcelona é um lugar que não dorme. Pessoas de todas as nacionalidades caminham por La Rambla durante o verão catalão em quantidades até um pouco irritantes. O emaranhado de pessoas é um problema pra quem carrega malas com rodinhas potencialmente atropeladoras de sandálias alheias. As bancas, abertas até durante a madrugada, estão cheias de bugigangas e souvenirs, sendo que metade é relacionada ao Barcelona F. C.

Sair de La Rambla e chegar a Plaza Catalunya já significa um pouco mais de calma. Não é à toa que Barcelona é uma das cidades turísticas prediletas de muita gente. Movimento do porte eu só tinha visto em Praga, famosa por belas construções antigas e cervejas baratas. Mas em Barcelona, o que atrai são justamente as construções modernas no sentido artístico. O famoso arquiteto local Gaudí deixou uma infinidade de obras bizarras. A Igreja da Sagrada Família, mundialmente conhecida, é apenas um dos devaneios do arquiteto. O Parc Güell levanta também dúvidas sobre a sanidade mental do seu autor, assim como a Casa Battló, que definitivamente gera suspeitas sobre os possíveis alucinógenos preferidos de Gaudí.

Nos primeiros dias fiquei em um pequeno albergue bastante calmo, onde rapidamente fiz uma amiga canadense. Arrastei a pobre coitada até o Camp Nou, estádio do Barcelona e que significa simplesmente “campo novo” no curioso idioma local, o catalão. O preço de entrada no campo era tão salgado quanto entrar na igreja do Gaudí: uns 17 euros. Obviamente, ficamos nas circunvizinhanças, uma vez que a canadense também curiosamente estava no aperto financeiro.

Decidimos então ir à praia sentar um pouco e não pensar em coisa alguma. Em alguns dias, eu teria um congresso na Universitat Pompeu Fabra. Precisava aproveitar meus últimos momentos de folga. Quando chegamos à praia, eu tinha esquecido que as européias de fato praticam o topless. Perguntei para a canadense que estava comigo se ela aderiria à moda local, mas a resposta foi decepcionante. Entretanto, de jovens a vovós, cerca de metade das mulheres eram adeptas da prática. Talvez as vovós não devessem aderir devido à imoralidade estética que causavam.

Um pouco adiante, um rapaz dava algumas leves palmadas no seio direito de sua namorada, como se fosse um pequeno balão, apesar dos protestos da bela moça (cuja histeria em espanhol lembrava a da personagem representada por Penélope Cruz em Vicky Cristina). Enquanto eu contemplava o mar com certa tranqüilidade, já mais acostumado à situação, duas jovens moças locais sentaram-se de frente para nós a fim de bronzear as costas. Conversando, tiraram a parte de cima de seu biquíni a um metro e meio de mim, como se fosse (e pra elas era) a coisa mais natural do mundo. E ali ficaram, enquanto eu fazia cara de parede.

Tinha marcado conversa pela internet com alguém e precisava voltar para o hotel. Pegamos nossas trouxas e voltamos. Saí de uma ficção e fui para uma outra chamada internet.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Quase sem teto por um dia

Há duas semanas, fui para um congresso acadêmico na Holanda. Mandei e-mail para meu amigo Jan, que mora na Alemanha há cerca de três horas de Utrecht, dizendo que poderia dar uma passada por lá. Jan disse que eu poderia ficar lá no fim de semana antes de minha volta ao Brasil, marcada para às 10 da manhã de segunda-feira, horário em que partia o avião do aeroporto de Schiphol em Amsterdam.

Isso exigia que eu estivesse no aeroporto às 8 da manhã. Infelizmente, não havia trem saindo cedo de manhã da Alemanha para chegar a tempo no aeroporto. O remédio era voltar para a Holanda na noite de domingo. Minha peculiar pão-durice achou que a melhor alternativa era dormir no aeroporto. Entretanto, o Fábio e o Ricardo, amigos que estavam no congresso, ficariam até domingo de manhã na casa de meu ex-colega Philipe em Amsterdam. A casa estaria vazia: eles teriam ido embora de manhã, eu chegaria à noite e os moradores estavam viajando de férias. O jeito era arranjar um jeito de me deixar a chave para que eu não precisasse dormir no aeroporto. Assim, poderia ter uma noite decente de sono e sair às 7 da manhã do apartamento em Amsterdam.

O Fábio mandou e-mail mostrando o esquema a ser usado. O Ricardo, que sairia mais tarde, deixaria a chave presa em um fio. Esse fio, fixado por um band-aid, estaria com uma de suas pontas para fora da caixa de correio. Eu puxaria esse fio e pegaria o molho de chaves que estaria dentro da caixa de correio. "Perfeito", pensei. "Quase perfeito", pensei em seguida. O Fábio não tinha me enviado o endereço do lugar. E nem me enviou. Philipe, o dono da casa, me mandou e-mail 5 minutos antes de eu abandonar a Alemanha com o endereço. Ufa.

Mais tranquilo, fui para Amsterdam e tentei seguir as instruções do Philipe para chegar na casa dele. A reforma dos metrôs de Amsterdam impediu-me de seguir essas instruções e, mal orientado por um guarda holandês, peguei um bonde e parei dois pontos antes do correto. Era meia-noite e caminhei praticamente sozinho na rua em direção ao prédio do Philipe. Cheguei lá uns 15 minutos depois, com duas mochilas pesadas e uma mala. "Ufa", pensei, "finalmente vou poder descansar". Há uma semana já sofria devido a uma dor nas costas por excesso de peso. Chegar era um alívio.

Olhei para a caixa de correio e não vi fio algum. Coloquei a mão na estreita fenda da caixa de correio. Apenas as pontas de meus dedos passaram, o que de nada adiantou, porque elas não acharam fio algum. Era quase 00:30 em Amsterdam e eu estava com três bagagens na escuridão. Olhei para os lados - ninguém. Lembrei de meu celular - sem bateria. Apertei o interfone - ninguém como esperado. Parei e refleti sobre a possibilidade de dormir em algum canto ali mesmo na rua.

Nessa hora, apareceu uma cabeça numa janela do prédio. "Uma esperança", disse pra mim mesmo. "Ei, sabe se tem alguém aí no apartamento número 52?", perguntei. Ele retrucou que achava que não e sumiu após meu desalentado agradecimento. Fiquei sozinho de novo. Fiquei 5 minutos pensando se tentava chegar a alguma estação, mas a luz da janela de meu último interlocutor continuava acesa. Não resisti e gritei: "hey!". A cabeça apareceu de novo. "Desculpa te incomodar a essa hora, mas posso usar sua internet? Preciso saber onde está a chave que meus amigos disseram que estaria aqui. É bem rápido!". Após um breve momento de hesitação, ele disse: "ok, espere um pouco". Trinta segundos depois, o portão do prédio se abriu.

Agradeci o cara e disse que lamentava pelo incômodo. Ele e sua mãe, ambos holandeses, me receberam bem e disseram pra eu me sentir à vontade. A mãe inclusive pediu desculpas pela bagunça. A internet, todavia, não trouxe novidades. Eu tinha seguido as instruções corretas. O bem-feitor então pegou uma haste fina de metal e disse que tentaria pescar a chave, uma vez que provavelmente o fio que estava preso tinha descolado. Voltamos para as caixas e ele tentou o procedimento, mas nenhum barulho denunciou a existência de qualquer chave.

Já desanimado, voltamos para dentro do prédio, mas então percebemos: a caixa de correio estava aberta para dentro do prédio. E sim, lá estava a chave com o band-aid descolado. Era uma da manhã em Amsterdam e eu me sentia renascido. Agradeci muito o holandês, mas não tinha presente para lhe dar. Não precisava dormir na rua com laptop e malas. Poderia ter uma noite decente.

E pensar que toda sexta-feira, a igreja luterana do Centro de São Paulo recebe cerca de 200 moradores de rua dentro do templo. E eu desesperado com a possibilidade de não ter teto por uma noite em um tranqüilo bairro holandês. Como posso não me importar então com quem diariamente dorme nas fétidas ruas do Centro paulistano ou em qualquer outro lugar?

sábado, 25 de julho de 2009

Solidão na escuridão

Dias atrás, despedi-me novamente de Porto Alegre. Os momentos antes de chegar ao aeroporto são sempre um pouco depressivos. Chegar em São Paulo e ver aquela multidão correndo com pressa aprofunda o sentimento de não pertencer àquele lugar. Mas pior do que isso é chegar e, logo em seguida, perceber que cortaram a energia elétrica de seu apartamento.

Coloquei o laptop na tomada e nada. Interruptores, lâmpadas, nada funcionava. Finalmente a chave geral: tudo como deveria estar, mas sem luz. O zelador me esclareceu o que ocorrera: o antigo inquilino mandara cortar a luz e retirar o nome dele da conta. Quando nos mudamos para o apartamento, a luz não havia sido cortada. Tentamos pagar a primeira conta, mas a caixa do banco avisou-me que já estava sendo debitado na conta corrente de alguém. Ligamos para o proprietário dizendo que desejávamos regularizar a situação, mas ele não conseguiu localizar o antigo inquilino. Por fim, deixamos tudo como estava, porquanto era mais cômodo, acreditando que as coisas um dia resolver-se-iam. E, de fato, a situação se resolveu – da pior maneira possível.

Passei a tarde em um café que fornecia acesso à internet e, quando cheguei em casa perto das 22h, não havia o que fazer sem eletricidade. O Felipe comprara velas e eu, uma lanterna. Deitei-me na cama e comecei a ler com a lanterna ligada criativamente pendurada na janela logo acima de minha cabeça. Um pequeno ponto luminoso se formou na vastidão do apartamento escuro. Mesmo ciente da presença de amigos nos quartos contíguos, a escuridão me deixou um sentimento de solidão repentina. Acabara de sair da minha acolhedora Porto Alegre, onde havia deixado família e amigos e onde tinha conhecido uma pessoa muito especial naquele fim de semana específico. Senti-me só, ouvindo apenas os ruídos longínquos dos carros lá fora na madrugada, sem luz ou distração e sem qualquer interesse pelo livro aberto iluminado na minha frente. Apenas só.

Ali deitado, lembrei-me do dia em que saí para caminhar com Daniel, um até então conhecido que gentilmente me hospedou na capital suíça em minha primeira passagem por aquele país. Era noite e atravessamos uma praça completamente escura, discutindo fé, graça e Deus. Nunca vira um breu tão intenso na rua e não conheço até hoje cidade grande no Brasil com iluminação tão reduzida à noite. Eu reclamava para Daniel que não entendia nem confiava muito em Deus. Quando percebi, tinha atravessado uma praça desconhecida apenas seguindo o barulho dos passos de um amigo recente sob uma iluminação praticamente nula. Percebi que confiar em Deus era algo parecido e que meu salmo de confirmação (Salmo 37.5) fazia sentido.

Pensando nisso, dei-me conta então que eu não estava sozinho em meu quarto escuro. Não estou sozinho e amanhã é um outro dia, pensei. Joguei o livro no chão ao lado da cama e comecei a escrever sobre o que tinha pensado.

domingo, 28 de junho de 2009

Schneeballschlacht?

Na última vez que escrevi sobre alemães, ressaltei apenas os pontos negativos e, na verdade, bizarros de minha passagem por aquele país. Recebi inúmeras cartas e comentários achando estranho que eu não tivesse gostado da Alemanha (como se fossem inúmeros os visitantes e fãs deste blog). Evidentemente, o que escrevi foi uma injustiça e acabei sendo mal-interpretado. A Alemanha é um ótimo país para se visitar e além de encontrar alemães excêntricos mencionados em um post anterior, encontrei também muitas pessoas das quais guardo excelentes lembranças.

Cruzei a Alemanha de norte a sul e de leste a oeste na primeira semana de advento em dezembro – acho que conheço muito bem os percursos da Deutsche Bahn (a empresa de trens). Houve um dia em que, para espanto de alguns, parei em Remscheid, cidade próxima a Köln, ou Colônia em bom português. Conhecia o grupo de jovens da igreja evangélica (a igreja territorial local uniu luteranos e reformados) em Remscheid porque eles tinham visitado o Brasil meses antes. Ficaram algumas semanas em Limeira e vieram para São Paulo em uma tarde de sexta-feira para conhecer o trabalho da Paróquia São Paulo – Centro com moradores de rua. Fiquei em contato por e-mail com um dos líderes do grupo, o jovem Jan, ainda terminando seus estudos secundários, um cara muito gente boa. Quando eu o avisei que estava indo pra Alemanha, ele imediatamente ofereceu-me sua casa e pude ficar dois dias e meio em sua cidade, Remscheid.

Como mencionei, de repente eu estava ali em Remscheid. E foi lá que eu realmente vi neve em generosas quantidades pela primeira vez. Na Suécia, eu vira neve suja no chão e uma bola de neve trazida por um pequeno sueco que a guardara no congelador por uma semana para que o brasileiro aqui pudesse ver. Na Noruega, estava frio e escuro, mas não tinha nevado. Em Neuendettelsau, ao sul da Alemanha, conheci o tal do Schneeregen, algo que parece neve, mas molha irritantemente e tem pouca consistência. (Aliás, Schneeregen segue a velha lógica germânica: Schnee significa neve e Regen, chuva. Nada mais apropriado para algo que não é chuva nem neve). Em Remscheid, acordei e estava tudo coberto de neve (apenas Schnee). Fui à escola com Jan e Juliane, sua simpática namorada, de pai italiano e mãe alemã. Ao nos aproximarmos da escola, flocos caíam sem pressa alguma de se encontrar com o chão esbranquiçado e percebi que as crianças já tinham armado uma guerra de bolas de neve logo antes da aula.

Assisti a uma aula de inglês e pude ver a abissal distância que há entre as aulas de inglês em um Gymnasium alemão e nossas melhores escolas. Comparativamente às outras escolas particulares de Porto Alegre, o inglês que tive no Colégio Militar era muito superior. Entretanto, o nível da discussão nessa escola alemã estava alguns andares acima do que eu tivera em meus tempos de ensino médio. Há uma diferença fundamental, é verdade: o Gymnasium é uma escola destinada àqueles que vão cursar universidades e, assim, é natural que essa escola tenha uma qualidade muito superior, uma vez que já foi feita uma seleção entre os alunos. Além do Gymnasium, há ainda mais dois tipos de escolas destinadas a ensino mais técnico do que acadêmico (ou seja, para os que não eram bons alunos). Um sistema talvez um pouco injusto porque pune excessivamente os erros passados, mas provavelmente eficiente, como os alemães geralmente costumam ser.

Mas além dessas constatações sociológicas, a parte mais legal de minha visita à cidade foi conhecer a igreja local e o belo espaço reservado aos jovens. No espaço grande, com cozinha e tudo, fizemos algumas panquecas, além é claro de jogar um pouco de tênis de mesa e conversar. No dia seguinte, fomos visitar os jovens da cidade vizinha, que também estavam no grupo que veio ao Brasil. Fui recebido de forma muito mais amistosa do que supunha por pessoas que tinham conversado comigo por apenas uma tarde. Conversamos comendo raclette e gastamos boas horas ali falando sobre a vida, até que todos decidiram, é claro, que era hora de uma guerra de bola de neve. (Sigamos novamente a lógica germânica: bola de neve obviamente é Schneeball. E, como Schlacht é batalha ou luta, a guerra de neve é Schneeballschlacht - que língua prática, assim é fácil operar a HP12C). E, mais do que isso, eles decidiram que eu precisava fazer meu primeiro boneco de neve (sigamos a lógica germânica: Schneemann). Foi divertido ser a criança que nunca pude ser por viver em um país que não neva.

Jan e seus amigos ainda me levaram para patinar no gelo em um dos dias. Foi no mínimo desastroso e agradeço a Deus por não ter perdido nenhum membro, que poderia ter sido cortado pelas lâminas de patins alheios de crianças que patinavam esbaforidamente. Talvez tenha sido curioso para elas ver um rapaz de 23 anos de feições orientais ter dificuldades imensas para andar mais do que alguns metros sem despencar no chão de gelo. Por sorte, não houve ferimentos comprometedores.

Deixei por lá alguns presentes e uma infinidade de agradecimentos. Baguncei a vida deles por uns dois dias, mas tenho certeza que eles gostaram de receber um irmão da igreja no Brasil. E eu posso dizer o mesmo. É bom se sentir em casa mesmo estando tão longe. De certa forma, não deixa de ser em casa, quando estamos na casa do Pai com irmãos. Como dizia a música que costumava cantar em minha adolescência na igreja, é “onde o céu toca a terra [...] que chega a verdadeira paz”.

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Odores e sabores

"A memória dos odores é muito rica", disse John Steinbeck no começo de um de seus mais famosos romances, mas eu acrescentaria também a memória dos sabores que as acompanham. Ontem mesmo, tive uma experiência nostálgica ao sentir o fumegar de uma sopa oriental que minha mãe costumava preparar para mim, saboreando-a em seguida com uma satisfação quase infantil.

Recentemente estive me Genebra em mais uma reunião do Conselho Mundial de Igrejas (CMI). Debatíamos que posicionamento deveriam as igrejas tomar diante da atual crise mundial e, nos intervalos, degustamos as refeições do hotel onde nos encontrávamos. O sabor era bom e os pratos eram esteticamente perfeitos, como se a beleza fosse mais importante do que a capacidade de matar a fome. A quantidade não era generosa e era exatamente o que deveria ser: apenas mais uma refeição de restaurante chique. Refeições caras que nos tornavam até hipócritas diante de nossas discussões sobre os nefastos efeitos da crise mundial sobre os pobres.

Lembrei da reunião que o CMI promoveu em Cuba, em um seminário teológico em Matanzas. Estou muito longe de ser fã da ditadura cubana - pelo contrário. Contudo, senti-me muito bem recebido em meio ao povo cubano. Lembro-me das refeições simples, com seus sabores e odores caseiros, com seus temperos particulares da região, preparadas por diligentes e simpáticas senhoras cubanas, provavelmente voluntárias. Também almoçamos em uma igreja presbiteriana em Havana, onde recebemos generosos pratos - comida feita pela comunidade. Não sei exatamente por que, sentia-me realmente bem durante aquelas refeições. Os cubanos infelizmente são pobres e, conseqüentemente, não podem nos oferecer iguarias em restaurantes. Mas pensando bem, prefiro essa refeições caseiras e simples.

Algum outro dia reclamaram quando descrevi minhas incursões a restaurantes em Oslo, durante uma outra reunião, desta vez no inverno escandinavo. Patrocinados pela rica Igreja da Noruega, saboreei peixes de sabores diversos com deliciosos acompanhamentos tradicionais de Natal. Novamente, esbáldavamo-nos em gula em meio a uma reunião de igreja. Nesses momentos, como também após dias de bandejão da USP ou de restaurantes chiques aqui mesmo no Brasil, a comida simples da mãe distante, com seus sabores e odores característicos, voltam à memória. Uma sensação de nostalgia se abate.

Após meses em São Paulo sem voltar pra casa em Porto Alegre, alguns conhecidos foram comigo aproveitar um fim de semana com promoções em restaurantes de São Paulo. Depois de esperar em filas, entramos em um aparentemente fino restaurante de cozinha espanhola. Novamente, refeições estéticas, quantidades mínimas, ambiente excessivemente artificial, todos reclamando dos pratos. Boa companhia, é verdade, mas nada como as paredes da sala de jantar em Porto Alegre ou como as refeições caseiras cubanas. Nem com meros salsichões na fogueira é possível comparar, como fiz na Suíça com meus amigos no alto de um monte com vistas para os Alpes, no dia subsequente às culinariamente finas reuniões do CMI. 

A refeição ceseira bem feita em ambientes que nos sentimos acolhidos e participantes sempre me parece melhor. A memória dos odores e sabores se associa a todos os outros sentimentos de satisfação nesses ambientes. Pelo menos em parte, Steinbeck tinha razão.

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Fazer por merecer

Prestei meu primeiro concurso aos 11 anos de idade. Concurso difícil para entrar na melhor escola de Porto Alegre, o Colégio Militar. Comecei a estudar dois meses antes da prova em casa com a ajuda de minha mãe que sentava comigo e estudava matemática todos os dias, enquanto muitos estudavam desde o início do ano em cursos preparatórios. Em um sábado, fomos conferir o resultado final do concurso no portão do colégio. Eu e meu pai. “Thomas Hyeono Kang – 4º lugar”. Olhei com meu pai com expectativa, lembro até hoje. Ele disse “poderia ter sido 3º, aí entraria no pódio”.

Não vou culpar meu pai, ser humano como qualquer outro, e que tentou dar o melhor para seu filho, assim como a minha mãe. Eles amam a sua maneira, sem conseguir demonstrar diretamente, uma doença bem comum entre pais orientais. De qualquer forma, até hoje cobro demais de mim mesmo. Decepciona-me profundamente ter feito algo sem o devido cuidado ou perceber que sou incapaz de algo. Hoje, meus pais não exigem muito de mim, basta eu. E assim ocorre com muitas pessoas. Conheço muitos casos mais extremos e, embora reconheça que esse tipo de exigência tenha suas vantagens (acho que sou relativamente saudável), percebo que o custo é alto para alguns.

A avidez com que olhei para meu pai, esperando o sinal de aprovação dele não deixava de ser o desejo de ser aceito. Em nosso mundo, em que a noção de justiça se baseia no mérito, queremos ser aceitos porque fizemos algo. Queremos fazer por merecer, inclusive o amor de pais, irmãos, amigos e namoradas. E por acreditar que não preenchemos as expectativas (nossas e dos outros), não conseguimos amar a nós mesmos.

Fui criado sob uma educação evangélica, em que me sentia obrigado a me portar como nossos pais e a nossa comunidade esperava que eu me comportasse. Como não conseguimos sempre nos comportar como esperam, carregamos nossos pecados com amargor, escondemos aqueles sentimentos que nos envergonham. A comunidade, a família ou os amigos, todos lançam um olhar julgador. É por isso que talvez os lugares mais hipócritas do mundo sejam justamente as igrejas, cuja essência deveria ser a pregação do Evangelho, mas que acaba transformando tudo numa lei opressora que joga a culpa em cima de nós e nos tira a possibilidade do perdão e da graça. Cria pessoas doentes que não conseguem se perdoar a si mesmas, quanto mais serem perdoadas por Deus.

Por muito tempo pensei no que deveria fazer para sentir a presença de Deus. Novamente, fazer algo, achar uma receita, fazer por merecer. Quando expus a um amigo suíço meus problemas quanto a isso, enquanto caminhávamos na escuridão em Bern, ele olhou e disse “não tente acreditar em Deus”. Em resposta ao meu olhar estupefato, ele continuou: “não tente agarrar-se a Deus com todas as forças, não o torne um objeto. Deus se relaciona conosco, deixe ele dar o primeiro passo”. É Deus que vem, não nós que fazemos algo para merecer encontrá-lo.

Lutero por muito tempo também tentou merecer o amor de Deus, assim como muitas vezes tentamos merecer o amor de nós mesmos. Lutero se penitenciava, batia em si mesmo por causa de seus pecados. Mas não conseguia parar de pecar e a situação só piorava. Quando ele percebeu que o amor de Deus é incondicional, que mesmo em pecado Ele está com a gente, que ele não quer seres perfeitos, mas pessoas que o sigam, ele pôde parar de se torturar.

Ao tentarmos merecer o amor de nós mesmos, dos outros e de Deus, caímos em um círculo vicioso. Jesus disse-nos que devemos amar os outros como a nós mesmos. Sentimos pena de nós mesmos, não nos sentimos merecedores de nada e ficamos centrados apenas em nosso ego ferido. Esquecemos de olhar para o próximo.

Philip Yancey, um excelente autor cristão (um dos poucos bons, diga-se de passagem), costuma dizer que é cristão apesar da Igreja. O Deus que conhecemos nas igrejas costuma ser julgador e ameaçador. Mas não é esse o Deus trazido por Cristo. Cristo conta-nos a parábola do filho pródigo, que após pegar a herança do pai, esbanjá-la irresponsavelmente e se perder na vida, volta para casa pedindo para ser escravo do pai, uma vez que não merecia ser seu filho de novo. O pai, ao ver isso, não o condena, nem exige algo para que ele recupere sua condição de filho. Ele o abraça e o recebe como filho novamente. Não precisamos fazer por merecer para sermos amados.

“Pecca fortiter”, dizia Lutero. Peca com coragem, sabendo que a graça é maior, que Deus perdoa. Não significa que agora saímos pecando deliberadamente. É apenas um chamado para olharmos a vida com coragem, porque acabaremos pecando como qualquer ser humano, mas que Deus está conosco mesmo sem merecermos.  Espero eu, no futuro, conseguir fazer meus filhos entenderem que são amados, mesmo quando não correspondem as expectativas. Afinal, a graça encontra beleza em tudo, como diz a música do U2.