segunda-feira, 5 de abril de 2010

Sozinha

Em um encontro de estudantes, o samba tocava alto dentro do pavilhão. Uma menina morena de olhos verdes sambava sozinha, enquanto alguns rapazes não conseguiam esconder sua vontade de observá-la, mesmo quando acompanhados de suas respectivas namoradas. Não foram poucos os olhares femininos raivosos para namorados e para Rafaela, a garota que sambava sozinha. Naquele momento, ninguém se sentia homem o suficiente para se aproximar dela. Minutos depois, ela poderia facilmente escolher na cama de quem acabaria.
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Jorge, engenheiro, era o namorado oficial de Rafaela e eles se encontravam apenas nos fins-de-semana, uma vez que ele morava em outra cidade. Mas Rafaela gostava também muito da companhia de Jonas, rapaz que já estava no doutorado e que a levava a lugares diferentes e interessantes. Outro que ela encontrava frequentemente era Carlos, que trabalhava no mercado financeiro e a levava para bares refinados, mas cujo ar de menino carente da mãe nas noites de sexo deixavam-na um pouco enojada. Carlos acabou substituído pelo filósofo Renato, músico excelente que sempre estava com um violão na mão e sempre muito carinhoso. Ricardo era uma companhia eventual, que a fazia se sentir viva, mas incapaz de gestos de carinho. Nessa época, Rafaela tinha uns 23 anos e achava que estava levando uma vida equilibrada.

Sua amiga Fernanda era o oposto dela: namorava há cerca de dois anos, mas já levava uma vida de casada há quarenta. Seus fins-de-semana eram preenchidos com passeios no parque e filmes no sofá. Mas Rafaela sabia como Fernanda na verdade invejava a vida dela, embora ela nunca tivesse tocado no assunto. Tinha percebido como Fernanda reagira negativamente ao ver um recente filme de Woody Allen, Vicky Cristina Barcelona. Ela se revoltou com o comportamento da comprometida Vicky, noiva de um rapaz boa praça, mas sem graça, que não resiste aos encantos de um mulherengo espanhol. Fernanda carecia de aventuras e a vida de Rafaela parecia ser uma grande aventura aos olhos da pacata Fernanda.
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Aos 29 anos, tinha um excelente emprego que rendia viagens para o exterior. Agora tinha “amigos” homens em diversas partes do mundo. Por outro lado, suas amigas começaram a casar e ter filhos. Do seu grupo da faculdade, só tinham restado ela e Fernanda solteiras (esta última tinha se separado do namorado após seis anos de namoro e então começou a seguir os passos de Vicky). Mas as excitantes viagens, acompanhada por homens diferentes em locais diferentes, supriam a necessidade de Rafaela de estar sempre rodeada. Lembrava com prazer de suas noites na Rússia e no México, dos originais champanhes bebidos em Paris e de passeios na Broadway. Enquanto isso, foi madrinha de casamento oito vezes, participou de 22 chás de bebês e se viu cada vez mais isolada.
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O tempo passara. Tinha 36 anos e estava visivelmente envelhecida. Mas ainda tinha resquícios da beleza de outrora, os mesmos olhos verdes contrastando com os cabelos escuros – talvez até com mais charme, aquele que só a maturidade pode dar. Filhos já não podiam fazer parte dos planos e a solidão era preenchida com homens, como sempre fora, só que agora em geral divorciados ou viúvos. Mas ela sentira que as coisas não eram tão fáceis como antigamente. Ainda viajava a trabalho para a Europa, onde ficaria na casa de mais um amigo - desta vez na Suíça. No avião, começou a gostar da conversa com um garoto franzino de 21 anos, quando percebeu, já tinha cedido terreno para o rapaz.

Chegou à Suíça após dar o número do celular para o jovem. Após as reuniões, hospedou-se na casa de seu amigo, um advogado de 57 anos. O casal momentâneo resolveu subir uma montanha dos Alpes Suíços. Por alguns momentos, ele foi fazer perguntas ao guia e a deixou sozinha contemplando do alto os dois lagos, divididos pela pequena cidade de Interlaken. Centenas de metros separavam Rafaela dos cristalinos lagos lá embaixo. Algo muito mais forte que a gravidade parecia chamá-la para se encontrar com as águas azuis do lago. Não teve dúvidas de que deveria obedecer o chamado.

domingo, 21 de março de 2010

Tortura

Lembro de certa vez, aos 12 anos, visitar uma exposição sobre tortura. Havia instrumentos ou réplicas deles de diversos tipos. Particularmente chocante foi ver uma enorme estaca, cujo objetivo fora a prática do empalamento há centenas de anos. De acordo com a explicação, o empalado era colocado na estaca através do ânus e não morria instantaneamente. Às vezes a pobre criatura demorava mais do que um dia para morrer de hemorragia, pelo menos na versão dos assírios, povo que tinha certo gosto por empalar prisioneiros de guerra e expô-los defronte as cidades que pretendiam invadir.

A partir dessa experiência (de ter conhecimento desse fato, não de ser empalado), compreendi o absurdo que é a tortura. Infelizmente, outras formas de tortura continuaram sendo praticadas em alguns lugares (inclusive em ditaduras que ainda hoje persistem). Por outro lado, muitos passaram a utilizar métodos menos dolorosos de execução. Em especial, lembro do uso das guilhotinas na Revolução Francesa no final do século XVIII. Em um livro comemorativo do segundo centenário da Revolução, li quando criança que o médico Guillotin propôs o uso da guilhotina por motivos humanitários: ela proporcionava uma morte mais rápida e menos dolorosa e, assim, a guilhotina se tornou um instrumento famoso (e excessivamente usado) na Revolução. Em relação aos assírios, era uma grande avanço, embora o próprio Guillotin tenha sido executado pelo instrumento, assim como também famosos cientistas como Lavoisier.

Em um momento em que a pena de morte não era discutida, a sugestão de Guillotin parece ter sido uma melhora substancial. Se a morte era inevitável, a guilhotina era talvez uma das formas menos dolorosas. Embora eu seja contra a pena de morte, acredito ter sido bom alguém ter inventado a cadeira elétrica. Pelo mesmo motivo, repudio veementemente toda forma de tortura, que mata lentamente e dolorosamente, como se a vida humana não tivesse qualquer valor - por pior que tenha sido o crime cometido.

Alguém bastante pessimista já disse que a vida é um constante morrer. Outro já disse que começamos a morrer quando nascemos. A pergunta que fica é: porque às vezes nos matam aos poucos quando clamamos por um tiro de misericórdia? Quando estamos sendo empalados, a guilhotina se torna muito simpática. Entretanto, mesmo involuntariamente devido a alguma análise míope, somos empalados e definhamos aos poucos. E eu não estou falando de eutanásia.

Às vezes, peço pela guilhotina ou pela absolvição. Quando existe esperança, é a possibilidade de absolvição que às vezes nos motiva a aguentarmos a tortura. É a esperança que Deus nos conceda novamente vida abundante.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Mimada


Era uma criança mimada, seus pais faziam tudo o que ela pedia

Não buscava diversões, as diversões vinham até ela

Assim como os amigos, a família para servi-la existia

Mas era charmosa e linda, e todos queriam agradá-la


Certa vez, um bom rapaz enamorou-se dela

Mas ele não lhe deu suas flores preferidas

Outro excelente rapaz caiu na sua teia

Mas ele não foi romântico o suficiente

Um terceiro viajou quilômetros para vê-la

Mas ela lhe disse que não era o momento


Um dia, porém, ela achou alguém

Que não se importava em fazer tudo que ela queria

E assim ela viveu para sempre

Com alguém que ela não queria

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

A abelha e a Citrus

Comecemos do jeito clichê.


Era uma vez uma abelha aficcionada por Schweppes Citrus (espero que a Coca-Cola não me processe). O problema é que poucas pessoas e abelhas bebem esse refrigerante, o que a tornava ainda mais desejada por essa abelha. Ela ficava zanzando em volta das poucas latinhas verdes que encontrava e sonhava um dia em conseguir experimentá-la. No entanto, ela acreditava que, das poucas vezes que tentou realmente parar de zanzar e ir direto ao ponto, teria morrido esmagada por algum humano (lembremos que a abelha era seguidora de Gandhi e, portanto, acreditava na reencarnação e na não-violência: ela jamais enfiaria seu ferrão na mão de seu agressor – o que seria coerente apenas com a idéia de guerra justa, não com a idéia de não-violência).


Por isso, a abelha continuava zanzando em volta do refrigerante apenas. O mais leve sinal de ameaça levava-a se afastar, mas logo se aproximava novamente de seu objeto de adoração. Seu maior desejo era que, em um dia qualquer, a latinha fosse derrubada, o líquido se espalhasse e ela pudesse provar a Citrus sem o menor esforço e risco. Sua fixação era tanta que nem os outros refrigerantes já experimentados e aprovados por inúmeras abelhas mundo afora lhe chamavam a atenção. As gostosas guaranás, colas e demais eram comumente vistas cheias de abelhas promíscuas. A Schweppes não. Poucos tinham o gosto de prová-las e seu cheiro era dos mais agradáveis.


Obviamente, as flores não lhe chamavam qualquer atenção. Essas seriam as mais fáceis: sem qualquer ameaça, ela poderia chegar nelas e usufruir facilmente de seu néctar, como milhares de outras abelhas faziam desde tempos imemoriais. Poderia pular de uma flor para outra e experimentar os diferentes tipos de néctar. Mas não, sua meta era a Schweppes Citrus. Entretanto, com medo de arriscar e levar um belo de um tapa, ficava apenas zanzando em volta, esquecendo outros refrigerantes e flores. Tinha conhecido duas outras abelhas que também gostavam de Schweppes, mas essas estavam hoje mortas pela raiva de chinelos humanos.


Certa vez, viu um homem caminhando na rua, cambaleando entre duas mulheres. Abraçado a elas, ele carregava uma garrafa com um cheiro forte, cujo conteúdo, quando ele não estava bebendo, era derramado ao longo do caminho. Ele ria alto, assim como as mulheres que o acompanhavam. A abelha, que estava em um momento depressivo pensando na sua inalcançável Citrus, sentiu o cheiro forte do líquido e, embora tenha o achado inicialmente um pouco asqueroso, sentiu enorme curiosidade de prová-lo.


A abelha tinha conhecido a cachaça. Com apenas uma gota daquele líquido amargo (que para a abelha era como um barril), a abelha se sentiu desinibida e pouco seletiva. Foi em busca do néctar de camélias, bromélias, margaridas, orquídeas e tulipas, mas também de milhares de flores horrorosas com néctar de qualidade muito duvidosa. Pulava de uma flor a outra de forma fugaz e, às vezes, dividia promiscuamente uma mesma flor com mais uma ou duas abelhas. Em um momento de pouca consciência, tentou se aproximar de uma planta carnívora que pensava ser uma flor. Quase foi comida, mas percebendo o erro, se afastou a tempo.


Algumas horas depois o efeito de entusiasmo se desfez e voltou a pensar na idealizada Schweppes Citrus. Chorou amargamente por sua paixão, enquanto se arrastava pelo chão sem conseguir voar. De repente, um Nike Shox 44 esmagou-a sem piedade. Provavelmente sem querer. E a abelha não reencarnou. FIM

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

O peso de uma vida sem Graça

Paula era a filha ideal. Fizera tudo que seus pais esperavam: estudava Direito na melhor faculdade da região, frequentava a igreja semanalmente e tinha uma vida casta até então. A vida noturna parecia-lhe inóspita – sentia-se como uma arara na Antártida. Tinha, portanto, uma vida quase asceta, coisa que ela só pretendia interromper quando encontrasse alguém que valesse a pena. De preferência alguém que resultasse em casamento, único momento em que a castidade lhe poderia ser completamente desnuda. Pelo menos, era o que sonhava - exatamente como os seus pais também sonhavam.

Mas Paula era uma menina charmosa: com pouco mais de 20 anos, exalava feromônios que deixavam ensandecidos rapazes da idade dela. Desde sua adolescência, vários garotos tentavam se aproximar dela. Alguns, mais espertos, já viam de antemão toda a burocracia familiar que poderia resultar uma relação com ela, além é claro da própria dificuldade homérica de estabelecer alguma relação mais do que amigável com ela. Ela também tinha um irmão, que poderia ser empecilho para possíveis pretendentes que não combinassem com a cartilha familiar, uma vez que, até o momento que se mudou para estudar, também tinha os mesmos valores de sua irmã e seus pais. A cartilha familiar previa um bom moço, estudioso, branco, ativo na igreja e inteligente. Seu irmão, fora de casa, tentou por um ano algumas namoradas convenientemente castas, até se perder em uma taberna fétida com uma prostituta de baixa categoria. Desde então, esfregava-se quinzenalmente com alguma profissional do sexo e o remorso inicial, aos poucos, foi se esvaecendo.

Não obstante, Paula continuava em casa, tentando seguir a cartilha. Possíveis pretendentes, no entanto, apareceram. Ela judiciosamente os avaliava, mas antes, se aproximava, dava inocentes abraços e beijos, tudo na mais completa amizade. Pelo menos em sua opinião, que não era compartilhada com os hormônios de seus pretendentes, cujas intenções, com disfarce inicial de amigo, eram essencialmente instintivos e carnais. Quando estes estavam sedentos por amor e sexo, ela chegava a pensar neles de modo mais sério, mas só de relance. O medo de decepcionar os pais, o medo de estar saindo da cartilha, o medo de algum deus oculto a condenando, o medo de se arriscar e se envolver, o medo de “perder o amigo”... tudo isso se juntava de tal modo que, para ela, era mais fácil continuar então a fingir que nada estava acontecendo. Seus beijos na bochecha e abraços continuavam, a sua perna encontrava a do rapaz debaixo da mesa inocentemente, seus joguinhos sentimentais e disfarçadamente sexuais (até para ela) continuavam.

Até que acontecia. A pobre criatura se declarava. Aconteceu repetidas vezes. Dezenas de rapazes deram com a cara no vidro. Após o não e ouvindo o discurso da amizade entre eles, os rapazes saíam desolados. Alguns, mais românticos e castos, continuavam sua busca por outras meninas do gênero – quando achavam, acabariam se casando com elas e tendo filhos que propagariam o falso evangelho legalista moral. Mas outros acabariam como o irmão de Paula, perdido na sarjeta depois de penetrar duas meretrizes.

A ideologia do conto de fadas era a melhor para Paula, todavia. Aos 18 anos, ao sair do banho, olhou-se de relance no espelho e percebeu quão harmonioso era o seu corpo. Seus seios não eram exageradamente grandes, porém tampouco pequenos. No conjunto de seu corpo, tinham exatamente a forma certa, ondulados e eretos. Suas pernas também eram bonitas e seu corpo era curvilíneo: nada excessivo ou exagerado, mas um corpo bonito aliado a um belo rosto, cabelos lisos e olhos claros. Fingiu que isso não era importante na sua vida, que eram os valores errados, que deveria se concentrar nos valores corretos. Mas a cada dia, buscava cuidar mais da alimentação a fim de manter sua beleza juvenil. Apesar disso, não queria de forma alguma reconhecer que tinha virado mulher e que tinha desejos outros além de amizades e bonecas.

Paula continuou com as “amizades inocentes”. Continuou andando de mãos dadas com “amigos” e dando-lhes abraços apertados. Por vezes ela se sentia atraído por alguns deles, mas pensava em um defeito deles e logo tentava se livrar desses desejos. As vítimas a abraçavam com vontade, enlaçando-a pela cintura e sorrateiramente acariciando-lhe as costas no intervalo entre a calça e a blusa – certamente com vontade de ir muito além. Logo depois, ela dizia como era importante a amizade entre eles.

Afinal, ser criança era muito mais conveniente para Paula. Crianças estudam e podem tentar satisfazer os desejos dos pais. A vida de Paula era dedicada a satisfazer os pais. As opiniões dos pais eram o que mais contavam na vida dela e arriscar-se com garotos talvez fosse a forma mais terrível de obter a desaprovação familiar.

Mas um dia, descobriu de alguma maneira que seu pai tivera uma amante no casamento. Paula já tinha seus 23 anos. Seu infantil sorriso se desvaneceu repentinamente. Satisfazer os pais parou de fazer sentido. A religião de seus pais não fazia sentido. Nada fazia sentido. Pensou diversas vezes em suicídio. E então descobriu as peripécias sexuais de seu irmão fora de casa através de uma amiga. Esta já tinha sido mais comportada, até se deixar levar pelo papo sedutor do irmão de Paula, que entusiasmada em um momento ébrio, descreveu para Paula detalhes sórdidos de seu momento de êxtase em uma festa. Paula finalmente concordara em ir a uma festa da faculdade no momento de crise.

Desolada e sem poder contar com ninguém, sentou-se na calçada às 4 da manhã e, amargamente, chorou. Viu colegas suas entrando em carros com pessoas que sequer conheciam, homens e mulheres. Mas viu também uma colega sua, ternamente abraçada com seu namorado, rindo de uma piada carinhosa. Ficou confusa e pediu a Deus que, se ele existisse, que a tirasse de lá. Um rapaz de duas turmas acima da dela, Roberto, também saía da festa, ligeiramente alcoolizado, mas com o rosto abatido. Tinha acabado há pouco seu relacionamento de 5 anos com a namorada, com quem, acidentalmente, tivera um filho natimorto. Merecido pensou, fora infiel duas vezes durante o período. Sentou-se ao lado de Paula por vê-la numa situação tão ruim ou pior que a dele.

E Paula resolveu se abrir. E falou tudo, detalhe por detalhe. Roberto ouviu-a pacientemente. Lembrou-se que tivera também um passado religioso e que, durante a adolescência, também era bastante regrado. Lembrou-se de como abandonara tudo, mas que tinha certa saudade daquele tempo, em que encontrava amigos na igreja nos almoços comunitários. E perceberam que tinham muita coisa em comum – eram da mesma comunidade, de onde Roberto desaparecera.

Em meio a conversa, ambos lembraram que o pastor sempre lhes falava de que nada precisavam fazer para merecer o amor de Deus. Paula pensou na sua vida em busca de satisfazer os pais para merecer o amor deles, enquanto que, pela primeira vez, Roberto pensava sobre essas palavras com uma visão mais madura.

Lentamente, Paula reclinou sua cabeça no ombro de Roberto. Fechou os olhos calmamente e se aproximou mais de Roberto, sem inocências. Roberto olhou para ela. O rosto de Paula transparecia a tranquilidade de quem deixara de carregar um peso. Ele a enlaçou pela cintura, enquanto olhava para a única estrela que aparecia entre as nuvens.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Quando persistimos no erro

Versão traduzida do inglês de nota publicada no meu Facebook no dia 8/12

Recentemente, o brilhante escritor português José Saramago lançou um livro chamado Caim. É uma crítica divertida e polêmica ao Velho Testamento e ao Cristianismo como um todo. Não esperaria algo diferente de Saramago, mas acredito que ele perdeu a chance de escrever algo mais interessante sobre o tema. O escritor usa a história de Caim e Abel apenas para destacar seu ponto de vista anti-religioso, esquecendo-se completamente que essa história é certamente uma das mais humanas de toda a Bíblia. Embora eu ainda goste de seus livros, acho que Saramago dessa vez não foi tão feliz.

A história dos dois irmãos, filhos de Adão e Eva, é bastante conhecida. Depois de oferecer um sacrifício que não foi aceito por Deus, uma vez que Abel tinha oferecido o melhor do seu rebanho para satisfazer a Deus, Caim mostra-se desapontado e cabisbaixo. De acordo com o quarto capítulo de Gênesis, Deus pergunta a Caim: “Por que andas irado, e por que descaiu o teu semblante?”. Deus continua dizendo (e aqui vem a melhor parte da história): “Se procederes bem, não é certo que serás aceito? Se, todavia, procederes mal, eis que o pecado jaz à porta; o seu desejo será contra ti, mas a ti cumpre dominá-lo” (Gênesis 4: 6-7 Almeida RA). No versículo seguinte, Caim mata seu irmão Abel.

No seu romance A Leste do Éden, John Steinbeck questiona as interpretações existentes do versículo citado. Enquanto a versão inglesa King James afirma que Caim deve dominar o pecado (thou shalt rule over him), a versão American Standard diz que Caim vai certamente dominar o pecado (do thou rule over it). A primeira chama à obediência, enquanto a última está segura de que o desejo pecaminoso será superado. Mas Steinbeck levanta uma terceira interpretação possível para o mesmo versículo. Segundo o autor, a diferença estaria na palavra hebraica timshel: “Tu poderás dominar sobre o pecado” seria uma tradução melhor. Isso daria a homens e mulheres a possibilidade de escolha entre o bem e o mal. Deus avisa Caim e o deixa escolher.

Não pretendo discutir aqui questões relacionadas a livre arbítrio ou à inclinação humana ao pecado. Também não pretendo examinar as diferenças entre as traduções da Bíblia. No entanto, é inevitável que pensemos sobre nossas próprias vidas sob a luz da interpretação de Steinbeck. Por vezes, continuamos fazendo coisas que sabemos serem erradas desde o começo. Mas nossas paixões e desejos não nos deixam em paz. Permitimos que elas nos dominem e nos levem a persistir no erro. Deus nos alerta, a Lei está lá para nos relembrar disso. Quando tudo termina da pior maneira possível (como já se previra), nossa consciência bate e nos arrependemos. Mas Deus já não tinha nos avisado suficientemente sobre isso, como ele fez com Caim?

Na verdade, essa história não é sobre livre arbítrio, mas sobre escravidão. Mesmo tendo a possibilidade da escolha, continuamos cativos de nossa natureza pecadora. Na maioria das vezes, escolhermos não “assassinar” apenas porque a Lei ou alguma regra moral afirma que é errado. Entretanto, continuamos presos em nossa natureza pecadora. Não é o amor de Deus e a liberdade cristã que nos motiva, mas a opressiva (e quase sempre necessária) Lei.

Deus nos alerta, mas não queremos ouvir seus avisos. Ainda assim, a graça de Jesus ainda está lá para nos carregar, mesmo quando sentimo-nos hipócritas e estúpidos. Apenas aqueles que reconhecem seus pecados entendem realmente o que significa o anúncio da graça depois da confissão: quando o pastor ou padre diz durante a celebração: “teus pecados estão perdoados”.

Deus fala conosco quando há algo de errado em nossa vida, mas isso não significa que ele nos rejeita. Muitos de nós, quando éramos crianças, sentíamo-nos rejeitados por nossos pais quando eles estavam desapontados conosco. Mas isso nunca significou que eles não nos amavam (pelo menos no meu caso). Deus ficou com Caim mesmo depois do homicídio. Caim não podia aguentar o fardo da própria culpa, mas Deus prometeu protegê-lo.

Ultimamente, tenho ferido apenas a mim mesmo com meus próprios pecados. Graças a Deus não tenho machucado outras pessoas (até onde sei...). Mas Deus está aí para curar-me e também (espero) para não permitir que eu cometa os mesmos erros. Daí então poderei fazer a escolha certa – não devido às restrições impostas pela Lei, mas porque Cristo me liberta.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Conflito ético

Pensar sobre o certo e o errado é algo que já me ocupou por um bom tempo. Antigamente as pessoas em geral não tinham maior necessidade de pensar sobre isso, afinal, o certo e o errado já estavam dados. Mas na época relativista em que vivemos, é difícil escapar da reflexão sobre a ética.

No entanto, uma coisa é o que pensamos ser ético de forma racional. Outra coisa são nossos verdadeiros sentimentos que temos guardados dentro de nós. É na tensão entre razão e emoção que, às vezes, um dos lados do conflito quer convencer o outro a ficar quieto. Quando um vence o outro é que vem a ação (ou a falta de ação) – às vezes vemos que cometemos um grande equívoco ao deixar o sentimento vencer sobre a razão; outras vezes arrependemo-nos amargamente de termos seguido nossa razão moralista que só era uma desculpa para a covardia.

Criado dentro de uma moralidade evangélica, cumprir as leis consideradas corretas pelo que eu entendia ser cristão era uma busca eterna. Algumas coisas eram bobagens sem qualquer fundamentação bíblica, teológica, prática ou racional. Essas rapidamente joguei fora. Mas ainda havia aquelas regras que conservei, que considerava válidas. Para essas, acreditava que todos os esforços deveriam ser feitos para que fossem cumpridas, sejam eles humanos ou sobre-humanos. Foi preciso carregar muita culpa para ver a impossibilidade de tal cumprimento pleno.

Seguindo os ensinamentos de Jesus, sempre considerei a vingança ou o sentimento vingativo algo errado. O que eu fazia era simplesmente suprimir o ódio e o desejo de vingança, engolindo seco, fingindo que estava tudo bem e enganando a mim mesmo. Lembro de um episódio em particular em relação a uma pessoa. Engoli seco a dor e a raiva, acreditei que estivesse tudo bem. Mas não consegui, após alguns anos, deixar de me flagrar fazendo piadas sarcásticas, dar alfinetadas e tudo o mais para atingir essa pessoa. Eu simplesmente não tinha superado aquele transtorno. É até curioso ver como a cura não provém de nosso esforço. Eu bem que tentei com as minhas próprias forças.

Sempre considerei errado tentar ficar com alguma guria compromissada (considerando namoro, quem dirá casamento). Para Jesus, o simples desejo por mulher de outrem já era pecado. Concordo, uma vez que, se desejamos a mulher de nosso próximo, não estamos nos colocando no lugar dele de acordo com o mandamento divino maior de amar o próximo. Mas os humanos são e não deixarão de ser humanos. Certa vez não pude evitar o surgimento de um forte interesse por uma menina que tinha namorado. Poderia negar e esconder os sentimentos, mas isso não me tornaria menos pecador. A situação me deixou em conflito: o que fazer? Afinal, o interesse surgiu e, portanto, o problema já existia. Num domingo, orei durante o culto para que Deus não me abandonasse no conflito ético. Estranhamente, ao conversar casualmente com a menina, a conversa chegou a tal ponto que não pude mais esconder meus sentimentos. E agora? Ir adiante ou não? Novo conflito ético se colocou.

Nessas horas, simplesmente devemos recorrer a Deus ao invés de simplesmente reprimir todo sentimento que acreditamos contrariar a ética cristã. É na oração que podemos tentar enxergar as coisas com os olhos amorosos de Deus. Por nossos próprios esforços, nunca deixaremos de pecar. E Deus compreendeu isso ao enviar seu Filho, que se tornou humano, permitindo que nós também fôssemos simplesmente humanos. Cristãos não são seres superiores ou menos pecadores (só se for farisaicamente), são pessoas que vivem da graça redentora de Deus, que sempre nos perdoa e nos ajuda a colocar sinais de seu Reino nesse mundo. É por ela que devemos esperar para que os erros não destruam nossa vida.

O teólogo e mártir Dietrich Bonhoeffer diz que Deus jamais nos deixa em um conflito ético insolúvel. Devemos, portanto, esperar a resposta dele. É isso que estou sempre esperando...