segunda-feira, 23 de março de 2009

A lenta marcha de Cuba

Ondas calmas de um límpido mar azulado chegam à praia harmoniosamente: enquanto algumas ondas quebram na areia de Varadero em Cuba, outras começam a se formar. E assim se segue sucessivamente. Absurdamente azul esse mar, penso eu. O que explica mesmo o azul que vemos na água? As aulas de física perdidas em algum canto do cérebro não se recuperam. Definitivamente não entendo porque enxergo meus pés na água transparente ao meu redor, enquanto que levantando ligeiramente a cabeça, tudo passa a ter um tom forte de azul.

Afastando-se da praia, está o estranho mundo dos habitantes de Cuba, começando pelo hotel. O setor de turismo recebe viajantes do mundo todo, que gastam seus euros e dólares no país, deixam um pouco de gorjeta e permitem que um garçom de hotel ganhe mais do que um médico muito bem formado em Cuba. Um pouco mais adiante, na porta da rua, charutos e garrafas de rum são precificados com a moeda para turistas, diferente da moeda local do dia-a-dia do cubano. Subitamente, um carro da década de 50 com pintura impecável passa por nós. É um milagre que esteja andando. Não obstante, outros carros da mesma época e alguns Ladas passam em seguida. Depois da Revolução em 1959, importar carros de países capitalistas se tornou praticamente impossível. Da entrada do hotel, entro no ônibus escolar de decênios atrás, que nos leva até o Seminário Teológico de Matanzas. É lá que a Comissão das Igrejas em Assuntos Internacionais, importante estrutura do Conselho Mundial de Igrejas, se reúne em março de 2009. 

A pobreza está em todo lugar, mas não uma pobreza de pessoas sem educação.  Com pinturas desfeitas nos prédios e falta de infra-estrutura, é verdade, mas com pessoas instruídas, mesmo vivendo em condições complicadas. Nossos irmãos da Europa Oriental, embora reconheçam o papel nefasto do embargo norte-americano e a abertura muito maior do regime cubano em termos relativos, lembram de seus tempos de opressão comunistas. Alguns africanos e latino-americanos olham com esperança para Cuba, querendo crer na solidariedade socialista e identificando-a com a ética cristã. Ingênuo, provavelmente. 

Músicos do fantástico coro da cidade de Matanzas, após venderem seus CDs para nós, batem papo comigo. Segundo eles, as pessoas não se importam muito com a política. O que as incomoda é a falta de dinheiro e bens essenciais. Gostariam de mais abertura, maior acesso aos mercados, mas valorizam seu bom nível de educação e sua saúde, resultado das políticas que vieram após a Revolução. A tirania de Fidel significou melhora na vida de muita gente. No entanto, isso não muda o fato dele ser um ditador e decidir os rumos do país como bem entende. 

A música faz parte da vida deles: a qualidade é impressionante. Fazem festas o tempo todo, são muito receptíveis e amáveis. Mudanças constitucionais no início da década de 1990 permitiram a volta oficial da religião em Cuba. Nas igrejas históricas em Havana, comunidades muito ativas prestam culto. Que continuem as mudanças. Que os mercados possam chegar a mais pessoas, que os Estados Unidos derrubem esse danoso embargo comercial. Que os cubanos não percam suas conquistas em educação e saúde nesse processo de abertura. Que Deus esteja com Cuba nessa lenta marcha em direção ao desenvolvimento. Amém.

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Livros

Cresci lendo livros. Não porque eu assim o quisesse, mas porque fui literalmente obrigado pela minha diligente mãe. Na época, assim como hoje, era um cara bem preguiçoso. Mas com o estímulo de minha irmã, que definitivamente não é preguiçosa, a leitura constituiu-se um hábito e até um gosto depois de algum tempo. Era um bom passatempo, tanto que li coisas que não deveria ter lido (não, não lia histórias eróticas, embora o início da adolescência seja hormonalmente pérfido). Talvez 13 anos não seja a melhor época da vida para ler A Morte de Ivan Ilitch ou um monte de outros livros que acabei lendo e não aproveitando coisa alguma...

Depois de um tempo, livro não era apenas gosto. As recompensas por ser uma “pessoa que lê” (grande merda) apareceram. Somado ao bom desempenho em sala de aula, a leitura tornou-se um dos pilares de minha auto-estima intelectual, um alimento à vaidade, um meio de se tornar superior aos outros na eterna competição em que vivemos aqui nesse mundo. A leitura era uma bela arma em conversas de boteco, um meio de mostrar erudição. Eu já lera quase tudo (ou ao menos pensava isso) e foi talvez aí que perdi muito do gosto pela leitura. Lia para dizer que li, não pela leitura em si. Em suma, a leitura se tornou um meio de ser mais bem aceito pelos outros.

No entanto, ainda restava alguma coisa do velho Thomas que gostava de ler. Alguns livros, que por acaso pegamos em um dia enfadonho de verão, marcam nossas vidas de alguma forma e fazem-nos voltar a querer ler avidamente em busca de respostas a perguntas que fazemos a nós mesmos. Quando temos preguiça de ver muitos filmes, o livro é um dos poucos meios restantes de se sentir identificado com algo ou alguém, de pensar em idéias novas, de abrir um pouco a cabeça.

Talvez John Steinbeck tenha sido um divisor de águas. Em um domingo qualquer, a biblioteca da igreja estava doando livros velhos. Um volume amarelado (tanto a capa quanto às páginas) de uma velha tradução de A Leste do Éden me pareceu atraente: aquele cheiro inconfundível de traças, digno de um antiquário.  Tendo apenas ouvido falar desse autor americano e que descobri depois que ganhara o Nobel, guardei o livro por anos em uma estante acumulando um bocado de pó. Enfatuado em um dia quente de férias na cidade, resolvi pegá-lo e espirrar um pouquinho no calor. Tenho um pouco de pena até hoje de tê-lo emprestado e perdido aquela tradução da década de 40, embora tenha feito alguém mais ler Steinbeck, um dos meus deveres nesse mundo. Após uma chuvarada na mochila de meu amigo, recebi de volta uma tradução mais nova e pior. Felizmente, existe outra nova tradução que aparentemente é boa.

A partir desse livro, Steinbeck conseguiu me deixar uma impressão profunda, apesar de meu excesso de racionalismo frio. É um autor que fala de sentimentos comuns a todos. Seus personagens são pessoas simples, mas sempre mostrando de forma clara as paixões de qualquer ser humano. A busca pela aceitação, presente em todos, mesmo adultos maduros, aparece no comportamento dos personagens ao longo de todo o livro. Uma coisa engraçada para alguém que também através da leitura buscava um pouco de aceitação.

Evidentemente, outros livros ficaram na minha cabeça antes e depois. Não posso deixar de fazer um tributo ao Mundo de Sofia (acho que muitos gostam desse livro), que eu folheio até hoje quando vai-lá-Deus-saber-por-que procuro informações sobre algum filósofo e não posso, não consigo ou não quero ler o original. O Contraponto de Aldous Huxley (aquele do Admirável Mundo Novo) também me fez pensar, assim como alguns livros teológicos que mudaram meu jeito de entender a fé, essa coisa tão estranha que alguns ainda insistem em ter.

É preciso alguma maturidade para ler e entender livros. Não que eu seja maduro, mas alguns livros exigem vida prévia. O problema é que, até que alguns livros realmente falem contigo, é preciso que a leitura tenha se tornado um costume (pelo menos para os preguiçosos de natureza como eu). Quem me dera ter lido Crime e Castigo depois de ter entendido o que é a idéia cristã da graça: aquilo que só depois de 22 anos freqüentando uma igreja luterana, arauto da graça, eu entendi com clareza como algo concreto na minha vida.

Talvez devesse ler Crime e Castigo de novo agora. Não tenho certeza, mas acredito que só sabendo com clareza o que é graça é possível entender direito esse livro. Deve-me faltar algo, mas eu não entendo porque esse livro é tão famoso se a idéia mais fundamental do livro é pouco popular. Crime e Castigo não acaba na culpa – esta sim comum a todos -, e talvez por isso, o livro não tenha um bom título:  parece faltar um pedaço. Mas não se preocupem, longe de eu querer ser maior que Dostoievski. 

sábado, 24 de janeiro de 2009

Nomadismo

Minha vida como mestrando foi muito conturbada. Cheguei a São Paulo no dia 30 de dezembro de 2006 com meu pai, que só veio ajudar no começo, e me ajeitei numa pensão. Passei o réveillon por lá e dormia sempre em um quarto que tinha paredes de divisórias feitas de plástico. Para completar, um dos meus vizinhos de pensão tinha um microfone dentro da garganta e sempre arranjava companhia para fazer café às duas da manhã na cozinha, muito próxima ao meu quarto. Ele realmente falava baixo, mas sua voz ressoava por toda a casa. Tenho propensão à insônia até no mais absoluto silêncio. Não preciso dizer mais nada

Tendo começado alegremente as aulas no dia 3 de janeiro, consegui, depois de muitos cafés (meus e do meu vizinho de voz ressoante) e noites mal-dormidas (tanto devido a estudo quanto devido a cafés alheios), arranjar um apartamento para morar. O menor apartamento de dois quartos que eu já vira, em condições que não eram das melhores, apesar da boa vontade da proprietária, pessoa aberta para ouvir seus inquilinos. Morei com um cara que já tinha morado com mais de centenas de pessoas em sua vida de estudante, o lendário TTF. Torcedor religioso e irracional do Galo, ele foi parar no BNDES um ano depois para agitar as noites cariocas, deixando-me sem alternativas para continuar morando no apartamento dividindo os custos. O remédio foi sair.

Os novos alunos do primeiro ano do mestrado (eu já estava no segundo) receberam-me amistosamente em sua elegante república. Tudo isso até perceberem que, por trás de meu fenótipo oriental metódico e esforçado, escondia-se o maior bagunceiro da casa (talvez concorrendo com outro colega, o tal de GT, pessoa de traços psicológicos sui generis). GRA, um mineiro também lendário que estudava deitado na cama o dia inteiro parecendo um bicho-preguiça; e HD, um brasiliense que joga cricket e que fazia o papel de mãe de GT, controlando suas travessuras, sofreram com minha magnânima falta de organização. Sorte deles que eu não tenho barba para deixar vestígios pela casa.

Antes de eu chegar, porém, morava um roedor na casa, que fora parar no Chile para fazer um curso. A iminente volta de RRG para o Brasil levou meus colegas ao desespero: cinco pessoas em um apartamento de três quartos era impensável, principalmente tendo Thomas entre eles. O remédio foi enviar Thomas de volta à vida nômade. Malandro e Guilherme, também amigos conhecidos na pós-graduação, tinham um quarto vago por uns meses, onde me instalei. Enquanto isso, comecei a procurar por apartamentos para janeiro. Meu ex-colega gaúcho Felipe teria que em breve abandonar o apartamento em que morava, vendido pelo seu proprietário sem prévio aviso (aluguel sem contrato dá nisso). Após muitas visitas e ligações, não encontramos apartamento, e fomos parar no meu ex-apartamento, no qual vivi com o velho TTF. Por circunstâncias incomuns, ele se encontrava vago seis meses depois de tê-lo abandonado.

O surgimento de uma boca de fumo na praça em frente de casa, a presença de três viaturas de policiais e a chegada de Juninho, amigo de UFRGS que tinha vindo fazer mestrado, foram fatores suficientes para decidirmos por sair. Conversamos com a proprietária e as coisas meio que se acertaram. Desde minha chegada a São Paulo, tinham se transcorrido para mim dois anos e cinco mudanças. Procurando apartamentos, entramos em vários que não nos agradaram. Passamos então pelo ex-prédio em que o Felipe morava, para que ele pudesse buscar correspondência. Por acaso, havia um apartamento legal e barato pra alugar: a sexta mudança é iminente.

Mais inusitado que isso, só encontrar o José Genoíno do PT em um supermercado de bairro em uma parte não muito fina do Butantã. Particularmente, no supermercado Violeta que fica na rua Boturoca. Isso é lugar de se encontrar ex-deputado federal? De qualquer maneira, logo devemos sair de perto desses lugares, onde Genoíno, bocas de fumo e estudantes da USP convivem em paz e harmonia. Quem sabe agora eu me torno sedentário e faço a revolução que meus antepassados fizeram no neolítico. Talvez a instabilidade do nomadismo explique a situação paleolítica da minha dissertação de mestrado.

sábado, 17 de janeiro de 2009

Se os tchecos não falassem tcheco...

No frio e no escuro, fui em direção à plataforma do trem na estação de Fulda, alguma cidadezinha no meio da Alemanha. Dois oficiais da Deutsche Bahn conferiam os bilhetes dos poucos passageiros do trem noturno em direção à Praga, capital da República Tcheca. O trem era antigo, mas como estava praticamente vazio, deitei-me com certo conforto sobre meu próprio mochilão. Já tinha passado da meia-noite, mas eu só chegaria em Praga às 8 da manhã, após uma surpreendente tranqüila noite de sono.

Já havia amanhecido, mas a estação de Praga conservava ainda uma iluminação turva. É como se os anos de comunismo tivessem deixado marcas impossíveis de se apagar. Por um momento, lembrei-me do livro do autor tcheco Kundera, que lera recentemente. A estação de Praha Holešovice não era moderna como as da Alemanha e em quase nada ajudava um pobre turista a encontrar o metrô para ir à estação central de Praga (em tcheco, Praha hlavní nádraží). Consegui, após alguma luta, comprar dinheiro tcheco e ligar para uma de minhas amigas que me esperavam na estação central. Contei-lhes da minha aflição em não entender uma palavra daquela estranha língua: era a primeira vez que de fato eu me deparava com uma língua eslava. Ainda que o alfabeto não fosse cirílico, de nada adiantava eu conhecer as letras quando oito consoantes e uma vogal juntas formavam uma palavra pronunciável (pelo menos os tchecos diziam que era pronunciável e eu ingenuamente acreditei neles).

A República Tcheca não é pobre, apesar da impressão deixada pela estação de trem. Segundo contaram minhas amigas tchecas, eles são algo entre a Europa Oriental e a Europa Ocidental, tanto em questões culturais como em questões de renda. Os palácios e antigas construções de Praga são extremamente bonitos: tudo conservado nas melhores condições. Conseqüentemente, o fluxo de turistas é imenso. Em geral, um bando de italianos gesticulando e falando alto, como é típico deles: aquela entonação característica, as vogais bem abertas com um ligeiro cantarolar irritante para alguns, maravilhoso para outros.

Conhecer os belos prédios tchecos, que não foram destruídos por guerras como aconteceu na Alemanha, é algo que vale bastante a pena. A estátua do famoso pré-reformador Jan Hus acima na foto é a prova disso. Mas ter guias simpáticas de lá sempre ajuda, principalmente se são suas amigas. Com elas, fui até para um culto da igreja protestante tcheca. Na Suécia, sabendo algumas regras de pronúncia era possível cantar os hinos. Na República Tcheca, não. Preposições como “z” não são pronunciáveis na minha cabeça, muito menos acentos circunflexos virados de ponta-cabeça em cima de consoantes. Mas para eles é: minha amiga Martina não escondia o riso em relação à minha dificuldade. Chegado o momento da pregação do pastor tcheco, achei que era um excelente momento para observar a arquitetura da igreja.

De qualquer forma, gostei muito de Praga. Minhas outras amigas Žaneta e Ester tinham alguma dificuldade no inglês, mas a gente se comunicava do jeito que dava, com a ajuda da Martina. Por duas vezes, sentamos para beber algumas das famosas cervejas tchecas. Embora eu não seja exatamente um cervejeiro, “breaco” (como dizem os paulistas), ébrio ou qualquer coisa parecida, a verdadeira cerveja Pilsen, a Pilsner Urquell, tem um excelente gosto amargo e característico. A Budweiser tcheca é muito, mas muito melhor do que a Budweiser americana. Com amigas, construções antigas e bonitas, e boas cervejas, fica fácil querer voltar pra Praga. 

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Alemães

O povo alemão é definitivamente um povo bem curioso. Na minha estadia na Alemanha, ouvi muita coisa sobre essa gente e também presenciei algumas cenas curiosas.

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Sempre ouvira falar como tudo funcionava perfeitamente na Alemanha. Um lugar em que as coisas são eficientes. Talvez não tenham a fama de extrema pontualidade que os ingleses têm, mas era de se esperar que os trens chegassem na hora.

No dia que cheguei à Alemanha, desci na estação central de Nürnberg e encontrei velhos amigos: a Mariana e o Vanderlei. A primeira estava indo embora justamente quando eu estava chegando: oi e tchau. Do segundo eu seria hóspede. No entanto, o atraso do trem acabou com todos meus planos de apenas cumprimentar a Mariana e despachá-la em seguida (só posso falar uma coisa dessas porque ela é minha amiga de infância). Por algum motivo, a Alemanha estava fazendo algumas manutenções em trens. Como o primeiro trem atrasou, ela iria perder o segundo e o terceiro sucessivamente. Enquanto isso, ela tentava ligar pra uma amiga que iria buscá-la no seu destino, porque ela possivelmente chegaria bem atrasada. Antes disso, já tínhamos corridos como baratas tontas cheios de malas atrás de informações sobre trens alternativos que a levassem ao mesmo destino, procurando nas listas amarelas as partidas de trens, falando com o pessoal do balcão de informações, etc. No fim das contas, ela se atrasou e não conseguiu falar com a amiga. O fim do mito da eficiência.

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Alguns dias depois, cheguei em Wittenberg, cidade onde iniciou-se a Reforma Luterana com as 95 teses expostas na porta da Igreja do Castelo da cidade em 1517. Encontrei um senhor muito gente boa que provavelmente foi contemporâneo de Lutero. Obviamente, ele não falava inglês. Assim, meu parco alemão somado a gestos foram as formas de comunicação empregadas, mas a gente se entendeu bem enquanto ele me levava à cidade velha.

Depois de ter visitado o museu na casa onde Lutero morara e as igrejas históricas, voltei à estação. Assim que cheguei lá, uma vontade absurda de ir ao banheiro (número 1) surgiu. Precisava de €0,50 para poder usufruir do banheiro. Tremendo, abri o zíper da minha carteira e fui empilhando ansiosamente as moedas de €0,10 e €0,05 no receptor preso à maçaneta da porta do banheiro. Completada a soma, a porta não abria. Dã. A porta só aceitava moedas de €0,50. Suando frio e me segurando tenso, fui em direção ao bar onde vendia-se wurst e pão. Já sabia que a atendente, uma senhora de fisionomia nada simpática, não falava inglês. Novamente, tentei recorrer ao meu pseudo-alemão. A língua alemã tem formas de tratamento informal e formal. Para “você”, há o termo informal “du” e o termo formal “Sie”. Como bom brasileiro não-acostumado a formalidades, cheguei pra mulher que me fitava dizendo: “Entschuldigung, kannst du...”. A mulher abruptamente interrompeu minha fala gritando um “Können Sie!!!” com os olhos flamejantes. Ainda em estado de choque, suando frio e tremendo, pedi desculpas e ela logo percebeu que eu precisava trocar moedas. Peguei avidamente as duas moedas como se valessem 50 euros e não 50 centavos cada. Pelo menos, pude acabar com minha ansiedade em seguida no mictório.

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O mijo rende muitas histórias. Voltando da República Tcheca, já em território alemão, entrei no trem e pensei em ir ao banheiro. Pelo menos desta vez não precisava pagar. A porta do banheiro sinalizava “banheiro livre”: nada mais natural do que abrir a porta. No entanto, a porta esbarrou em algo. Quando o algo começou a esbravejar palavras em alemão, provavelmente me amaldiçoando pelo tom, percebi que o algo era alguém. Não consegui ver a pessoa, mas pedi desculpas e voltei à minha poltrona. Afinal, a vontade não era tanta assim.

Meia hora depois, já quase na estação de destino, resolvi então peregrinar novamente em direção ao banheiro. Desta vez, a porta estava entreaberta. “Graças a Deus”, pensei. Não iria agüentar muito tempo mais. Empurrei a porta já entreaberta e a mesma voz pouco amistosa surgiu de dentro do banheiro esbravejando qualquer coisa que não entendi nem quero entender. Tive vontade de ensinar pra aquele velho de bexiga frouxa que quando se usa o banheiro, principalmente em locais públicos, fecha-se a porta, pelo menos em países selváticos como o Brasil. Respirei fundo e voltei ao meu lugar. Fiquei à espreita pra ver se o velho saía e só depois disso pude me livrar da água do joelho.

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Na última cidade que visitei, Munique, resolvi parar e comer um sorvete Häagen-Dazs. Uma atendente linda, simpática e de riso fácil salvou minhas impressões negativas da Alemanha. Além disso, indicou-me um excelente sabor de sorvete. Algo se salva ainda naquele país.

PS: Na verdade, gostei bastante da Alemanha. Mas permitam-me certa licença poética. Feliz Natal.

sábado, 20 de dezembro de 2008

Vitrines e canais


Um homem caminha rapidamente em uma ponte que passa por cima de um canal. Ao atravessar a ponte, ele de repente pára em frente a uma porta. Da mesma forma que ele abriria a porta de um banheiro público, ele abre a vitrine iluminada por uma lâmpada vermelha. Não deixa de estar simplesmente satisfazendo uma espécie de necessidade. Ao lado dessa porta envidraçada, há outras iguais. Todas com uma luz vermelha. Em algumas, há mulheres em trajes sumários, oferecendo-se por quantias que superam € 50. Em outras, cortinas fechadas encobrindo o vidro, como na porta em que o homem entrou: é o momento do consumo.


O bairro da luz vermelha de Amsterdam é de fato curioso para quem não está acostumado. A hipocrisia moralista é substituída pela legalização daquilo que de fato sempre acontece, não importa o que a lei diga. As mulheres ficam em vitrines, o que escancara o fato da mulher se tornar mercadoria no mercado da prostituição. Enquanto isso, outros homens, alguns de distinta aparência, entram em outras portas. Em alguns corredores, mulheres horríveis. Em outros, mulheres realmente bonitas, cujos preços imagino serem altíssimos.


Amsterdam é conhecida também por sua tolerância às drogas. Tudo o que há de pior da Europa em termos de paz social, respeito e ordem deve ter a aspiração de passar alguns dias nessa cidade. Uma loja com um grande cogumelo na porta vendendo de tudo divide espaço com uma loja que vende flores, incluindo os bulbos das famosas tulipas holandesas: famosas não apenas por sua beleza, mas por terem sido protagonistas de uma crise econômica no século XVIII não muito diferente da vivenciada hoje com o mercado de crédito imobiliário. Mas não apenas tulipas, maconha oficial holandesa também é vendida. Encontramos até “starter kits” de maconha. A prova disso está devidamente registrada por fotos, que certamente não serão divulgadas para não acabar com minha futura e brilhante carreira política.


Esquece-se, todavia, de outras características da Holanda. De fato, a língua não é das mais belas de se ouvir, embora haja muitas mulheres belas. A arquitetura de seu centro antigo é bastante peculiar, com suas avenidas cortadas por inúmeros canais: tecnologia de séculos atrás segurando o mar através de diques.


Eu e meu amigo Philipe, ex-blogueiro do Rabiscos e atual do simples notas, estivemos visitando diversas partes de Amsterdam. Ele está fazendo a pós-graduação dele em Economia no Timbergen Institute, centro de excelência na área. Como grande admirador de música clássica, ele comprou ingressos para um concerto no Concert Gebouw, onde toca uma das melhores orquestras do mundo. O salão lotado de senhores e senhoras extremamente bem-vestidos era um contraste com o que havia de mais vil no bairro da Luz Vermelha. Provavelmente, alguns deles freqüentam assiduamente o bairro, entrando como se não quisessem nada (a situação é bem outra) em qualquer vitrine que lhe agrade mais. É a imagem que fica da cidade, mesmo tendo ouvido o excelente desempenho da orquestra com as obras de Dvorak e com o desempenho do reconhecido pianista brasileiro Nelson Freire.


Na manhã seguinte, abandonei o quarto do Philipe com banheiro pessoal em um bairro de estudantes. Ambiente agradável em que a cozinha é dividida com os demais moradores do andar. O essencial está ali para um estudante, o que seria o ideal para mim por exemplo na USP, mas que não existe no Brasil. No Brasil, prefere-se subsidiar o restaurante universitário para que todos os alunos das universidades públicas, um bando de famintos, possam comer decentemente pagando a justa quantia de R$ 1,90.



De Amsterdam, meu trem seguiria em direção à Düsseldorf, e então para a capital alemã Berlin.

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

As belezas de Oslo


15:30. É noite na Noruega. Final de novembro e início de dezembro é a época mais depressiva nos países nórdicos. As noites escuras e longas são quebradas apenas pelo tímido sol que aparece entre 9 e 10 da manhã. É quase como se o sol aparecesse, cruzasse o céu correndo e caísse no horizonte em seguida.

As reuniões de um grupo de trabalho do Conselho Mundial de Igrejas que tivemos aqui na Kirken Hus (a tradução literal seria "Casa da Igreja") iniciavam às 9 horas e terminavam às 6 da tarde. Iniciavam à noite e terminavam à noite. Kirken Hus é onde está localizada a parte administrativa da Igreja da Noruega, que pertence ao Estado. Essa igreja, portanto, é financiada por impostos pagos pelos cidadãos noruegueses. Cerca de 83% dos noruegueses hoje são membros da Igreja da Noruega, que pertence ao ramo luterano do Cristianismo. Ainda assim, são poucos os membros ativos, dada a intensa secularização da região.

Após o dia (ou a noite, que seja...) de trabalho, não havia mais tempo para conhecer Oslo, afinal a escuridão já tinha tomado conta de tudo. Pelo menos, algum setor ou departamento da Igreja da Noruega dava um jeito de nos pagar jantares em excelentes restaurantes. Conheci típicos pratos natalinos noruegueses, além de outras iguarias como seus pescados. É bom lembrar que a Noruega é um país que depende em boa parte de pesca, assim como também de petróleo.

Na quinta-feira, sem mais trabalho a ser feito, pude passear um pouco. Passei pelo Parlamento, pelo Palácio Real e pelo moderno Museu do Prêmio Nobel da Paz. Mas mais interessante do que isso, as recepcionistas do hotel já me indicavam que as mulheres norueguesas deveriam ser bem atraentes. Existe um certo fetichismo em relação aos países nórdicos que eu pensava ser exagerado. Não é exagero. Mulheres lindas para todos os lados, com seus cabelos loiros na sua variação mais clara e natural. Não é simplesmente por serem loiras, mas a concepção de rosto delas em especial é muito atrativa. Sem contar que costumam ser simpáticas e solícitas. É um povo muito mais aberto e amigável do que eu supunha, dado o inóspito clima da região.

Na frente do Palácio Real, estava ocorrendo alguma cerimônia. Uma pequena exibição militar aparentemente devido à saída do Rei. Não estava certo disso e resolvi perguntar pra uma guria linda que ajudava a cuidar de uma turma de crianças. Começamos uma amigável conversa que durou até o momento em que ela perguntou o que eu estava fazendo em Oslo. Respondi que estava em uma reunião de igreja na sede da Igreja da Noruega. Quase instantaneamente, ela se afastou e passou a dar atenção para as crianças. Povo ateu esse... Bom, sem problemas, não havia tempo para mais nada, precisava pegar o trem para a Suécia.

Antes deixar Oslo de vez e pegar o trem, almocei pela última vez na Kirken Hus. Uma das moças que trabalhava ali era chinesa ou descendente de chineses. Mesmo as chinesas norueguesas são mais bonitas que as que geralmente eu vejo: provavelmente a chinesa mais bonita que já vi em vida. Infelizmente, nossa comunicação estava prejudicada: seu inglês não era muito bom (algo muito raro na Noruega, por isso acredito que ela realmente fosse chinesa). Mas interessante foi o comentário da outra garçonete norueguesa em meio a risadas: "Foi você que estava tocando piano ontem? Toca mais um pouco! Acho que ela (a chinesinha) gostou bastante!". E continuou rindo ao mesmo tempo que a simpática chinesa sorria timidamente com aquela reserva e embaraço tipicamente oriental. Mas não havia tempo para mais nada novamente. Comprei um sanduíche e agradeci. Ela balbulciou um "you are welcome" e eu deixei a bela Oslo para trás em direção à Suécia.