segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

O peso de uma vida sem Graça

Paula era a filha ideal. Fizera tudo que seus pais esperavam: estudava Direito na melhor faculdade da região, frequentava a igreja semanalmente e tinha uma vida casta até então. A vida noturna parecia-lhe inóspita – sentia-se como uma arara na Antártida. Tinha, portanto, uma vida quase asceta, coisa que ela só pretendia interromper quando encontrasse alguém que valesse a pena. De preferência alguém que resultasse em casamento, único momento em que a castidade lhe poderia ser completamente desnuda. Pelo menos, era o que sonhava - exatamente como os seus pais também sonhavam.

Mas Paula era uma menina charmosa: com pouco mais de 20 anos, exalava feromônios que deixavam ensandecidos rapazes da idade dela. Desde sua adolescência, vários garotos tentavam se aproximar dela. Alguns, mais espertos, já viam de antemão toda a burocracia familiar que poderia resultar uma relação com ela, além é claro da própria dificuldade homérica de estabelecer alguma relação mais do que amigável com ela. Ela também tinha um irmão, que poderia ser empecilho para possíveis pretendentes que não combinassem com a cartilha familiar, uma vez que, até o momento que se mudou para estudar, também tinha os mesmos valores de sua irmã e seus pais. A cartilha familiar previa um bom moço, estudioso, branco, ativo na igreja e inteligente. Seu irmão, fora de casa, tentou por um ano algumas namoradas convenientemente castas, até se perder em uma taberna fétida com uma prostituta de baixa categoria. Desde então, esfregava-se quinzenalmente com alguma profissional do sexo e o remorso inicial, aos poucos, foi se esvaecendo.

Não obstante, Paula continuava em casa, tentando seguir a cartilha. Possíveis pretendentes, no entanto, apareceram. Ela judiciosamente os avaliava, mas antes, se aproximava, dava inocentes abraços e beijos, tudo na mais completa amizade. Pelo menos em sua opinião, que não era compartilhada com os hormônios de seus pretendentes, cujas intenções, com disfarce inicial de amigo, eram essencialmente instintivos e carnais. Quando estes estavam sedentos por amor e sexo, ela chegava a pensar neles de modo mais sério, mas só de relance. O medo de decepcionar os pais, o medo de estar saindo da cartilha, o medo de algum deus oculto a condenando, o medo de se arriscar e se envolver, o medo de “perder o amigo”... tudo isso se juntava de tal modo que, para ela, era mais fácil continuar então a fingir que nada estava acontecendo. Seus beijos na bochecha e abraços continuavam, a sua perna encontrava a do rapaz debaixo da mesa inocentemente, seus joguinhos sentimentais e disfarçadamente sexuais (até para ela) continuavam.

Até que acontecia. A pobre criatura se declarava. Aconteceu repetidas vezes. Dezenas de rapazes deram com a cara no vidro. Após o não e ouvindo o discurso da amizade entre eles, os rapazes saíam desolados. Alguns, mais românticos e castos, continuavam sua busca por outras meninas do gênero – quando achavam, acabariam se casando com elas e tendo filhos que propagariam o falso evangelho legalista moral. Mas outros acabariam como o irmão de Paula, perdido na sarjeta depois de penetrar duas meretrizes.

A ideologia do conto de fadas era a melhor para Paula, todavia. Aos 18 anos, ao sair do banho, olhou-se de relance no espelho e percebeu quão harmonioso era o seu corpo. Seus seios não eram exageradamente grandes, porém tampouco pequenos. No conjunto de seu corpo, tinham exatamente a forma certa, ondulados e eretos. Suas pernas também eram bonitas e seu corpo era curvilíneo: nada excessivo ou exagerado, mas um corpo bonito aliado a um belo rosto, cabelos lisos e olhos claros. Fingiu que isso não era importante na sua vida, que eram os valores errados, que deveria se concentrar nos valores corretos. Mas a cada dia, buscava cuidar mais da alimentação a fim de manter sua beleza juvenil. Apesar disso, não queria de forma alguma reconhecer que tinha virado mulher e que tinha desejos outros além de amizades e bonecas.

Paula continuou com as “amizades inocentes”. Continuou andando de mãos dadas com “amigos” e dando-lhes abraços apertados. Por vezes ela se sentia atraído por alguns deles, mas pensava em um defeito deles e logo tentava se livrar desses desejos. As vítimas a abraçavam com vontade, enlaçando-a pela cintura e sorrateiramente acariciando-lhe as costas no intervalo entre a calça e a blusa – certamente com vontade de ir muito além. Logo depois, ela dizia como era importante a amizade entre eles.

Afinal, ser criança era muito mais conveniente para Paula. Crianças estudam e podem tentar satisfazer os desejos dos pais. A vida de Paula era dedicada a satisfazer os pais. As opiniões dos pais eram o que mais contavam na vida dela e arriscar-se com garotos talvez fosse a forma mais terrível de obter a desaprovação familiar.

Mas um dia, descobriu de alguma maneira que seu pai tivera uma amante no casamento. Paula já tinha seus 23 anos. Seu infantil sorriso se desvaneceu repentinamente. Satisfazer os pais parou de fazer sentido. A religião de seus pais não fazia sentido. Nada fazia sentido. Pensou diversas vezes em suicídio. E então descobriu as peripécias sexuais de seu irmão fora de casa através de uma amiga. Esta já tinha sido mais comportada, até se deixar levar pelo papo sedutor do irmão de Paula, que entusiasmada em um momento ébrio, descreveu para Paula detalhes sórdidos de seu momento de êxtase em uma festa. Paula finalmente concordara em ir a uma festa da faculdade no momento de crise.

Desolada e sem poder contar com ninguém, sentou-se na calçada às 4 da manhã e, amargamente, chorou. Viu colegas suas entrando em carros com pessoas que sequer conheciam, homens e mulheres. Mas viu também uma colega sua, ternamente abraçada com seu namorado, rindo de uma piada carinhosa. Ficou confusa e pediu a Deus que, se ele existisse, que a tirasse de lá. Um rapaz de duas turmas acima da dela, Roberto, também saía da festa, ligeiramente alcoolizado, mas com o rosto abatido. Tinha acabado há pouco seu relacionamento de 5 anos com a namorada, com quem, acidentalmente, tivera um filho natimorto. Merecido pensou, fora infiel duas vezes durante o período. Sentou-se ao lado de Paula por vê-la numa situação tão ruim ou pior que a dele.

E Paula resolveu se abrir. E falou tudo, detalhe por detalhe. Roberto ouviu-a pacientemente. Lembrou-se que tivera também um passado religioso e que, durante a adolescência, também era bastante regrado. Lembrou-se de como abandonara tudo, mas que tinha certa saudade daquele tempo, em que encontrava amigos na igreja nos almoços comunitários. E perceberam que tinham muita coisa em comum – eram da mesma comunidade, de onde Roberto desaparecera.

Em meio a conversa, ambos lembraram que o pastor sempre lhes falava de que nada precisavam fazer para merecer o amor de Deus. Paula pensou na sua vida em busca de satisfazer os pais para merecer o amor deles, enquanto que, pela primeira vez, Roberto pensava sobre essas palavras com uma visão mais madura.

Lentamente, Paula reclinou sua cabeça no ombro de Roberto. Fechou os olhos calmamente e se aproximou mais de Roberto, sem inocências. Roberto olhou para ela. O rosto de Paula transparecia a tranquilidade de quem deixara de carregar um peso. Ele a enlaçou pela cintura, enquanto olhava para a única estrela que aparecia entre as nuvens.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Quando persistimos no erro

Versão traduzida do inglês de nota publicada no meu Facebook no dia 8/12

Recentemente, o brilhante escritor português José Saramago lançou um livro chamado Caim. É uma crítica divertida e polêmica ao Velho Testamento e ao Cristianismo como um todo. Não esperaria algo diferente de Saramago, mas acredito que ele perdeu a chance de escrever algo mais interessante sobre o tema. O escritor usa a história de Caim e Abel apenas para destacar seu ponto de vista anti-religioso, esquecendo-se completamente que essa história é certamente uma das mais humanas de toda a Bíblia. Embora eu ainda goste de seus livros, acho que Saramago dessa vez não foi tão feliz.

A história dos dois irmãos, filhos de Adão e Eva, é bastante conhecida. Depois de oferecer um sacrifício que não foi aceito por Deus, uma vez que Abel tinha oferecido o melhor do seu rebanho para satisfazer a Deus, Caim mostra-se desapontado e cabisbaixo. De acordo com o quarto capítulo de Gênesis, Deus pergunta a Caim: “Por que andas irado, e por que descaiu o teu semblante?”. Deus continua dizendo (e aqui vem a melhor parte da história): “Se procederes bem, não é certo que serás aceito? Se, todavia, procederes mal, eis que o pecado jaz à porta; o seu desejo será contra ti, mas a ti cumpre dominá-lo” (Gênesis 4: 6-7 Almeida RA). No versículo seguinte, Caim mata seu irmão Abel.

No seu romance A Leste do Éden, John Steinbeck questiona as interpretações existentes do versículo citado. Enquanto a versão inglesa King James afirma que Caim deve dominar o pecado (thou shalt rule over him), a versão American Standard diz que Caim vai certamente dominar o pecado (do thou rule over it). A primeira chama à obediência, enquanto a última está segura de que o desejo pecaminoso será superado. Mas Steinbeck levanta uma terceira interpretação possível para o mesmo versículo. Segundo o autor, a diferença estaria na palavra hebraica timshel: “Tu poderás dominar sobre o pecado” seria uma tradução melhor. Isso daria a homens e mulheres a possibilidade de escolha entre o bem e o mal. Deus avisa Caim e o deixa escolher.

Não pretendo discutir aqui questões relacionadas a livre arbítrio ou à inclinação humana ao pecado. Também não pretendo examinar as diferenças entre as traduções da Bíblia. No entanto, é inevitável que pensemos sobre nossas próprias vidas sob a luz da interpretação de Steinbeck. Por vezes, continuamos fazendo coisas que sabemos serem erradas desde o começo. Mas nossas paixões e desejos não nos deixam em paz. Permitimos que elas nos dominem e nos levem a persistir no erro. Deus nos alerta, a Lei está lá para nos relembrar disso. Quando tudo termina da pior maneira possível (como já se previra), nossa consciência bate e nos arrependemos. Mas Deus já não tinha nos avisado suficientemente sobre isso, como ele fez com Caim?

Na verdade, essa história não é sobre livre arbítrio, mas sobre escravidão. Mesmo tendo a possibilidade da escolha, continuamos cativos de nossa natureza pecadora. Na maioria das vezes, escolhermos não “assassinar” apenas porque a Lei ou alguma regra moral afirma que é errado. Entretanto, continuamos presos em nossa natureza pecadora. Não é o amor de Deus e a liberdade cristã que nos motiva, mas a opressiva (e quase sempre necessária) Lei.

Deus nos alerta, mas não queremos ouvir seus avisos. Ainda assim, a graça de Jesus ainda está lá para nos carregar, mesmo quando sentimo-nos hipócritas e estúpidos. Apenas aqueles que reconhecem seus pecados entendem realmente o que significa o anúncio da graça depois da confissão: quando o pastor ou padre diz durante a celebração: “teus pecados estão perdoados”.

Deus fala conosco quando há algo de errado em nossa vida, mas isso não significa que ele nos rejeita. Muitos de nós, quando éramos crianças, sentíamo-nos rejeitados por nossos pais quando eles estavam desapontados conosco. Mas isso nunca significou que eles não nos amavam (pelo menos no meu caso). Deus ficou com Caim mesmo depois do homicídio. Caim não podia aguentar o fardo da própria culpa, mas Deus prometeu protegê-lo.

Ultimamente, tenho ferido apenas a mim mesmo com meus próprios pecados. Graças a Deus não tenho machucado outras pessoas (até onde sei...). Mas Deus está aí para curar-me e também (espero) para não permitir que eu cometa os mesmos erros. Daí então poderei fazer a escolha certa – não devido às restrições impostas pela Lei, mas porque Cristo me liberta.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Conflito ético

Pensar sobre o certo e o errado é algo que já me ocupou por um bom tempo. Antigamente as pessoas em geral não tinham maior necessidade de pensar sobre isso, afinal, o certo e o errado já estavam dados. Mas na época relativista em que vivemos, é difícil escapar da reflexão sobre a ética.

No entanto, uma coisa é o que pensamos ser ético de forma racional. Outra coisa são nossos verdadeiros sentimentos que temos guardados dentro de nós. É na tensão entre razão e emoção que, às vezes, um dos lados do conflito quer convencer o outro a ficar quieto. Quando um vence o outro é que vem a ação (ou a falta de ação) – às vezes vemos que cometemos um grande equívoco ao deixar o sentimento vencer sobre a razão; outras vezes arrependemo-nos amargamente de termos seguido nossa razão moralista que só era uma desculpa para a covardia.

Criado dentro de uma moralidade evangélica, cumprir as leis consideradas corretas pelo que eu entendia ser cristão era uma busca eterna. Algumas coisas eram bobagens sem qualquer fundamentação bíblica, teológica, prática ou racional. Essas rapidamente joguei fora. Mas ainda havia aquelas regras que conservei, que considerava válidas. Para essas, acreditava que todos os esforços deveriam ser feitos para que fossem cumpridas, sejam eles humanos ou sobre-humanos. Foi preciso carregar muita culpa para ver a impossibilidade de tal cumprimento pleno.

Seguindo os ensinamentos de Jesus, sempre considerei a vingança ou o sentimento vingativo algo errado. O que eu fazia era simplesmente suprimir o ódio e o desejo de vingança, engolindo seco, fingindo que estava tudo bem e enganando a mim mesmo. Lembro de um episódio em particular em relação a uma pessoa. Engoli seco a dor e a raiva, acreditei que estivesse tudo bem. Mas não consegui, após alguns anos, deixar de me flagrar fazendo piadas sarcásticas, dar alfinetadas e tudo o mais para atingir essa pessoa. Eu simplesmente não tinha superado aquele transtorno. É até curioso ver como a cura não provém de nosso esforço. Eu bem que tentei com as minhas próprias forças.

Sempre considerei errado tentar ficar com alguma guria compromissada (considerando namoro, quem dirá casamento). Para Jesus, o simples desejo por mulher de outrem já era pecado. Concordo, uma vez que, se desejamos a mulher de nosso próximo, não estamos nos colocando no lugar dele de acordo com o mandamento divino maior de amar o próximo. Mas os humanos são e não deixarão de ser humanos. Certa vez não pude evitar o surgimento de um forte interesse por uma menina que tinha namorado. Poderia negar e esconder os sentimentos, mas isso não me tornaria menos pecador. A situação me deixou em conflito: o que fazer? Afinal, o interesse surgiu e, portanto, o problema já existia. Num domingo, orei durante o culto para que Deus não me abandonasse no conflito ético. Estranhamente, ao conversar casualmente com a menina, a conversa chegou a tal ponto que não pude mais esconder meus sentimentos. E agora? Ir adiante ou não? Novo conflito ético se colocou.

Nessas horas, simplesmente devemos recorrer a Deus ao invés de simplesmente reprimir todo sentimento que acreditamos contrariar a ética cristã. É na oração que podemos tentar enxergar as coisas com os olhos amorosos de Deus. Por nossos próprios esforços, nunca deixaremos de pecar. E Deus compreendeu isso ao enviar seu Filho, que se tornou humano, permitindo que nós também fôssemos simplesmente humanos. Cristãos não são seres superiores ou menos pecadores (só se for farisaicamente), são pessoas que vivem da graça redentora de Deus, que sempre nos perdoa e nos ajuda a colocar sinais de seu Reino nesse mundo. É por ela que devemos esperar para que os erros não destruam nossa vida.

O teólogo e mártir Dietrich Bonhoeffer diz que Deus jamais nos deixa em um conflito ético insolúvel. Devemos, portanto, esperar a resposta dele. É isso que estou sempre esperando...

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Dança da chuva

Era um belo fim-de-semana na primavera suíça. Após uma exaustiva semana de reuniões promovida pelo Conselho Mundial de Igrejas, em que discutimos assuntos como a crise econômica mundial, decidi visitar meus bons amigos suíços Daniel, Alena e Tobias. O casal Alena e Daniel há pouco tinham tido uma filha, a pequena Amèlie, motivo de alegria para todos.

Como era um belo dia, meus amigos decidiram que deveríamos levar uns salsichões e fazer uma fogueira no alto de um morro nos arredores de Bern, já dentro dos limites do município de Ostermundigen. Após uma longa caminhada morro acima, de onde enxergávamos o vale todo abaixo, encontramos gravetos para assar os salsichões, enquanto Amèlie fazia barulhos sentada sobre o lençol estendido no chão. Fogueira feita, salsichões espetados: tudo nos conformes com uma conversa entre amigos.

As nuvens começaram a se adensar quando decidimos voltar e os pingos de chuva começaram a cair aos poucos. Resolvemos parar em um charmoso café no meio do caminho de volta. Enquanto sorvíamos nossos chocolates quentes dentro da velha construção de madeira e o volume da chuva aumentava, Daniel se lembrou da situação de uma conhecida próxima em meio a uma conversa. Ela estava passando por um doloroso processo de divórcio: essa pessoa finalmente pensara que tinha encontrado a pessoa certa, mas mais uma decepção ocorrera. Tobias também a conhecia e apenas suspirou, assim como Alena. Daniel então refletiu: “Sabe, o problema fundamental não é achar a pessoa certa, mas sim o amar a si mesmo”. Como sempre, a sacada de Daniel me surpreendeu, apesar de sua aparente simplicidade bíblica e psicológica. Esperei ele concluir: “Desde que você se ame, algum relacionamento vai adiante. A questão não é tanto encontrar a pessoa certa”.

Nunca digiro esse tipo de reflexão rápido. Ainda havia indícios de chuva, mas decidimos arriscar ir embora, afinal a bochechuda Amèlie estava protegida com uma capa de chuva feita para seu carrinho de bebê. Ainda longe do nosso destino, o céu desabou novamente e, sem alternativas para se proteger, Daniel e Tobias resolveram fazer uma “dança da chuva”. Alena empurrava o carrinho rindo de seu marido e de seu amigo loucos e alegres gritando e urrando enquanto giravam no ar suas camisetas encharcadas. Permaneci ao lado dela achando graça também, mas não participei do momento.

Enquanto eles pulavam, perguntei-me a mim mesmo o quanto eu tenho me amado na correria de minha vida. Há alguns anos eu provavelmente estaria gritando com eles se aparecesse a oportunidade. Algo ocorreu nesse meio tempo e percebi que precisava recuperar o tempo perdido.

Voltei para São Paulo e esqueci de quase tudo que pensara naquele momento. Mais uma vez, o turbilhão da vida paulistana me atropelara sem ao menos eu tomar consciência do fato. Mas aos poucos a gente reaprende. O filho pródigo sempre pode voltar para casa.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Uma ficção chamada Barcelona

La Rambla de Barcelona é um lugar que não dorme. Pessoas de todas as nacionalidades caminham por La Rambla durante o verão catalão em quantidades até um pouco irritantes. O emaranhado de pessoas é um problema pra quem carrega malas com rodinhas potencialmente atropeladoras de sandálias alheias. As bancas, abertas até durante a madrugada, estão cheias de bugigangas e souvenirs, sendo que metade é relacionada ao Barcelona F. C.

Sair de La Rambla e chegar a Plaza Catalunya já significa um pouco mais de calma. Não é à toa que Barcelona é uma das cidades turísticas prediletas de muita gente. Movimento do porte eu só tinha visto em Praga, famosa por belas construções antigas e cervejas baratas. Mas em Barcelona, o que atrai são justamente as construções modernas no sentido artístico. O famoso arquiteto local Gaudí deixou uma infinidade de obras bizarras. A Igreja da Sagrada Família, mundialmente conhecida, é apenas um dos devaneios do arquiteto. O Parc Güell levanta também dúvidas sobre a sanidade mental do seu autor, assim como a Casa Battló, que definitivamente gera suspeitas sobre os possíveis alucinógenos preferidos de Gaudí.

Nos primeiros dias fiquei em um pequeno albergue bastante calmo, onde rapidamente fiz uma amiga canadense. Arrastei a pobre coitada até o Camp Nou, estádio do Barcelona e que significa simplesmente “campo novo” no curioso idioma local, o catalão. O preço de entrada no campo era tão salgado quanto entrar na igreja do Gaudí: uns 17 euros. Obviamente, ficamos nas circunvizinhanças, uma vez que a canadense também curiosamente estava no aperto financeiro.

Decidimos então ir à praia sentar um pouco e não pensar em coisa alguma. Em alguns dias, eu teria um congresso na Universitat Pompeu Fabra. Precisava aproveitar meus últimos momentos de folga. Quando chegamos à praia, eu tinha esquecido que as européias de fato praticam o topless. Perguntei para a canadense que estava comigo se ela aderiria à moda local, mas a resposta foi decepcionante. Entretanto, de jovens a vovós, cerca de metade das mulheres eram adeptas da prática. Talvez as vovós não devessem aderir devido à imoralidade estética que causavam.

Um pouco adiante, um rapaz dava algumas leves palmadas no seio direito de sua namorada, como se fosse um pequeno balão, apesar dos protestos da bela moça (cuja histeria em espanhol lembrava a da personagem representada por Penélope Cruz em Vicky Cristina). Enquanto eu contemplava o mar com certa tranqüilidade, já mais acostumado à situação, duas jovens moças locais sentaram-se de frente para nós a fim de bronzear as costas. Conversando, tiraram a parte de cima de seu biquíni a um metro e meio de mim, como se fosse (e pra elas era) a coisa mais natural do mundo. E ali ficaram, enquanto eu fazia cara de parede.

Tinha marcado conversa pela internet com alguém e precisava voltar para o hotel. Pegamos nossas trouxas e voltamos. Saí de uma ficção e fui para uma outra chamada internet.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Quase sem teto por um dia

Há duas semanas, fui para um congresso acadêmico na Holanda. Mandei e-mail para meu amigo Jan, que mora na Alemanha há cerca de três horas de Utrecht, dizendo que poderia dar uma passada por lá. Jan disse que eu poderia ficar lá no fim de semana antes de minha volta ao Brasil, marcada para às 10 da manhã de segunda-feira, horário em que partia o avião do aeroporto de Schiphol em Amsterdam.

Isso exigia que eu estivesse no aeroporto às 8 da manhã. Infelizmente, não havia trem saindo cedo de manhã da Alemanha para chegar a tempo no aeroporto. O remédio era voltar para a Holanda na noite de domingo. Minha peculiar pão-durice achou que a melhor alternativa era dormir no aeroporto. Entretanto, o Fábio e o Ricardo, amigos que estavam no congresso, ficariam até domingo de manhã na casa de meu ex-colega Philipe em Amsterdam. A casa estaria vazia: eles teriam ido embora de manhã, eu chegaria à noite e os moradores estavam viajando de férias. O jeito era arranjar um jeito de me deixar a chave para que eu não precisasse dormir no aeroporto. Assim, poderia ter uma noite decente de sono e sair às 7 da manhã do apartamento em Amsterdam.

O Fábio mandou e-mail mostrando o esquema a ser usado. O Ricardo, que sairia mais tarde, deixaria a chave presa em um fio. Esse fio, fixado por um band-aid, estaria com uma de suas pontas para fora da caixa de correio. Eu puxaria esse fio e pegaria o molho de chaves que estaria dentro da caixa de correio. "Perfeito", pensei. "Quase perfeito", pensei em seguida. O Fábio não tinha me enviado o endereço do lugar. E nem me enviou. Philipe, o dono da casa, me mandou e-mail 5 minutos antes de eu abandonar a Alemanha com o endereço. Ufa.

Mais tranquilo, fui para Amsterdam e tentei seguir as instruções do Philipe para chegar na casa dele. A reforma dos metrôs de Amsterdam impediu-me de seguir essas instruções e, mal orientado por um guarda holandês, peguei um bonde e parei dois pontos antes do correto. Era meia-noite e caminhei praticamente sozinho na rua em direção ao prédio do Philipe. Cheguei lá uns 15 minutos depois, com duas mochilas pesadas e uma mala. "Ufa", pensei, "finalmente vou poder descansar". Há uma semana já sofria devido a uma dor nas costas por excesso de peso. Chegar era um alívio.

Olhei para a caixa de correio e não vi fio algum. Coloquei a mão na estreita fenda da caixa de correio. Apenas as pontas de meus dedos passaram, o que de nada adiantou, porque elas não acharam fio algum. Era quase 00:30 em Amsterdam e eu estava com três bagagens na escuridão. Olhei para os lados - ninguém. Lembrei de meu celular - sem bateria. Apertei o interfone - ninguém como esperado. Parei e refleti sobre a possibilidade de dormir em algum canto ali mesmo na rua.

Nessa hora, apareceu uma cabeça numa janela do prédio. "Uma esperança", disse pra mim mesmo. "Ei, sabe se tem alguém aí no apartamento número 52?", perguntei. Ele retrucou que achava que não e sumiu após meu desalentado agradecimento. Fiquei sozinho de novo. Fiquei 5 minutos pensando se tentava chegar a alguma estação, mas a luz da janela de meu último interlocutor continuava acesa. Não resisti e gritei: "hey!". A cabeça apareceu de novo. "Desculpa te incomodar a essa hora, mas posso usar sua internet? Preciso saber onde está a chave que meus amigos disseram que estaria aqui. É bem rápido!". Após um breve momento de hesitação, ele disse: "ok, espere um pouco". Trinta segundos depois, o portão do prédio se abriu.

Agradeci o cara e disse que lamentava pelo incômodo. Ele e sua mãe, ambos holandeses, me receberam bem e disseram pra eu me sentir à vontade. A mãe inclusive pediu desculpas pela bagunça. A internet, todavia, não trouxe novidades. Eu tinha seguido as instruções corretas. O bem-feitor então pegou uma haste fina de metal e disse que tentaria pescar a chave, uma vez que provavelmente o fio que estava preso tinha descolado. Voltamos para as caixas e ele tentou o procedimento, mas nenhum barulho denunciou a existência de qualquer chave.

Já desanimado, voltamos para dentro do prédio, mas então percebemos: a caixa de correio estava aberta para dentro do prédio. E sim, lá estava a chave com o band-aid descolado. Era uma da manhã em Amsterdam e eu me sentia renascido. Agradeci muito o holandês, mas não tinha presente para lhe dar. Não precisava dormir na rua com laptop e malas. Poderia ter uma noite decente.

E pensar que toda sexta-feira, a igreja luterana do Centro de São Paulo recebe cerca de 200 moradores de rua dentro do templo. E eu desesperado com a possibilidade de não ter teto por uma noite em um tranqüilo bairro holandês. Como posso não me importar então com quem diariamente dorme nas fétidas ruas do Centro paulistano ou em qualquer outro lugar?

sábado, 25 de julho de 2009

Solidão na escuridão

Dias atrás, despedi-me novamente de Porto Alegre. Os momentos antes de chegar ao aeroporto são sempre um pouco depressivos. Chegar em São Paulo e ver aquela multidão correndo com pressa aprofunda o sentimento de não pertencer àquele lugar. Mas pior do que isso é chegar e, logo em seguida, perceber que cortaram a energia elétrica de seu apartamento.

Coloquei o laptop na tomada e nada. Interruptores, lâmpadas, nada funcionava. Finalmente a chave geral: tudo como deveria estar, mas sem luz. O zelador me esclareceu o que ocorrera: o antigo inquilino mandara cortar a luz e retirar o nome dele da conta. Quando nos mudamos para o apartamento, a luz não havia sido cortada. Tentamos pagar a primeira conta, mas a caixa do banco avisou-me que já estava sendo debitado na conta corrente de alguém. Ligamos para o proprietário dizendo que desejávamos regularizar a situação, mas ele não conseguiu localizar o antigo inquilino. Por fim, deixamos tudo como estava, porquanto era mais cômodo, acreditando que as coisas um dia resolver-se-iam. E, de fato, a situação se resolveu – da pior maneira possível.

Passei a tarde em um café que fornecia acesso à internet e, quando cheguei em casa perto das 22h, não havia o que fazer sem eletricidade. O Felipe comprara velas e eu, uma lanterna. Deitei-me na cama e comecei a ler com a lanterna ligada criativamente pendurada na janela logo acima de minha cabeça. Um pequeno ponto luminoso se formou na vastidão do apartamento escuro. Mesmo ciente da presença de amigos nos quartos contíguos, a escuridão me deixou um sentimento de solidão repentina. Acabara de sair da minha acolhedora Porto Alegre, onde havia deixado família e amigos e onde tinha conhecido uma pessoa muito especial naquele fim de semana específico. Senti-me só, ouvindo apenas os ruídos longínquos dos carros lá fora na madrugada, sem luz ou distração e sem qualquer interesse pelo livro aberto iluminado na minha frente. Apenas só.

Ali deitado, lembrei-me do dia em que saí para caminhar com Daniel, um até então conhecido que gentilmente me hospedou na capital suíça em minha primeira passagem por aquele país. Era noite e atravessamos uma praça completamente escura, discutindo fé, graça e Deus. Nunca vira um breu tão intenso na rua e não conheço até hoje cidade grande no Brasil com iluminação tão reduzida à noite. Eu reclamava para Daniel que não entendia nem confiava muito em Deus. Quando percebi, tinha atravessado uma praça desconhecida apenas seguindo o barulho dos passos de um amigo recente sob uma iluminação praticamente nula. Percebi que confiar em Deus era algo parecido e que meu salmo de confirmação (Salmo 37.5) fazia sentido.

Pensando nisso, dei-me conta então que eu não estava sozinho em meu quarto escuro. Não estou sozinho e amanhã é um outro dia, pensei. Joguei o livro no chão ao lado da cama e comecei a escrever sobre o que tinha pensado.