segunda-feira, 11 de maio de 2009

Fazer por merecer

Prestei meu primeiro concurso aos 11 anos de idade. Concurso difícil para entrar na melhor escola de Porto Alegre, o Colégio Militar. Comecei a estudar dois meses antes da prova em casa com a ajuda de minha mãe que sentava comigo e estudava matemática todos os dias, enquanto muitos estudavam desde o início do ano em cursos preparatórios. Em um sábado, fomos conferir o resultado final do concurso no portão do colégio. Eu e meu pai. “Thomas Hyeono Kang – 4º lugar”. Olhei com meu pai com expectativa, lembro até hoje. Ele disse “poderia ter sido 3º, aí entraria no pódio”.

Não vou culpar meu pai, ser humano como qualquer outro, e que tentou dar o melhor para seu filho, assim como a minha mãe. Eles amam a sua maneira, sem conseguir demonstrar diretamente, uma doença bem comum entre pais orientais. De qualquer forma, até hoje cobro demais de mim mesmo. Decepciona-me profundamente ter feito algo sem o devido cuidado ou perceber que sou incapaz de algo. Hoje, meus pais não exigem muito de mim, basta eu. E assim ocorre com muitas pessoas. Conheço muitos casos mais extremos e, embora reconheça que esse tipo de exigência tenha suas vantagens (acho que sou relativamente saudável), percebo que o custo é alto para alguns.

A avidez com que olhei para meu pai, esperando o sinal de aprovação dele não deixava de ser o desejo de ser aceito. Em nosso mundo, em que a noção de justiça se baseia no mérito, queremos ser aceitos porque fizemos algo. Queremos fazer por merecer, inclusive o amor de pais, irmãos, amigos e namoradas. E por acreditar que não preenchemos as expectativas (nossas e dos outros), não conseguimos amar a nós mesmos.

Fui criado sob uma educação evangélica, em que me sentia obrigado a me portar como nossos pais e a nossa comunidade esperava que eu me comportasse. Como não conseguimos sempre nos comportar como esperam, carregamos nossos pecados com amargor, escondemos aqueles sentimentos que nos envergonham. A comunidade, a família ou os amigos, todos lançam um olhar julgador. É por isso que talvez os lugares mais hipócritas do mundo sejam justamente as igrejas, cuja essência deveria ser a pregação do Evangelho, mas que acaba transformando tudo numa lei opressora que joga a culpa em cima de nós e nos tira a possibilidade do perdão e da graça. Cria pessoas doentes que não conseguem se perdoar a si mesmas, quanto mais serem perdoadas por Deus.

Por muito tempo pensei no que deveria fazer para sentir a presença de Deus. Novamente, fazer algo, achar uma receita, fazer por merecer. Quando expus a um amigo suíço meus problemas quanto a isso, enquanto caminhávamos na escuridão em Bern, ele olhou e disse “não tente acreditar em Deus”. Em resposta ao meu olhar estupefato, ele continuou: “não tente agarrar-se a Deus com todas as forças, não o torne um objeto. Deus se relaciona conosco, deixe ele dar o primeiro passo”. É Deus que vem, não nós que fazemos algo para merecer encontrá-lo.

Lutero por muito tempo também tentou merecer o amor de Deus, assim como muitas vezes tentamos merecer o amor de nós mesmos. Lutero se penitenciava, batia em si mesmo por causa de seus pecados. Mas não conseguia parar de pecar e a situação só piorava. Quando ele percebeu que o amor de Deus é incondicional, que mesmo em pecado Ele está com a gente, que ele não quer seres perfeitos, mas pessoas que o sigam, ele pôde parar de se torturar.

Ao tentarmos merecer o amor de nós mesmos, dos outros e de Deus, caímos em um círculo vicioso. Jesus disse-nos que devemos amar os outros como a nós mesmos. Sentimos pena de nós mesmos, não nos sentimos merecedores de nada e ficamos centrados apenas em nosso ego ferido. Esquecemos de olhar para o próximo.

Philip Yancey, um excelente autor cristão (um dos poucos bons, diga-se de passagem), costuma dizer que é cristão apesar da Igreja. O Deus que conhecemos nas igrejas costuma ser julgador e ameaçador. Mas não é esse o Deus trazido por Cristo. Cristo conta-nos a parábola do filho pródigo, que após pegar a herança do pai, esbanjá-la irresponsavelmente e se perder na vida, volta para casa pedindo para ser escravo do pai, uma vez que não merecia ser seu filho de novo. O pai, ao ver isso, não o condena, nem exige algo para que ele recupere sua condição de filho. Ele o abraça e o recebe como filho novamente. Não precisamos fazer por merecer para sermos amados.

“Pecca fortiter”, dizia Lutero. Peca com coragem, sabendo que a graça é maior, que Deus perdoa. Não significa que agora saímos pecando deliberadamente. É apenas um chamado para olharmos a vida com coragem, porque acabaremos pecando como qualquer ser humano, mas que Deus está conosco mesmo sem merecermos.  Espero eu, no futuro, conseguir fazer meus filhos entenderem que são amados, mesmo quando não correspondem as expectativas. Afinal, a graça encontra beleza em tudo, como diz a música do U2. 

domingo, 26 de abril de 2009

Ânimo em meio à turbulência

Recentemente andava extremamente desanimado com a quantidade de pequenas e grandes tarefas que se avolumavam para mim em São Paulo. As obrigações de mestrando, que já são suficientes para ocupar uma vida, somavam-se à preocupação com as monitorias para os alunos da graduação e ao projeto junto ao governo do Estado em que tenho trabalhado. Como se não bastassem, compromissos com a Igreja adicionavam ainda mais peso.

Mais do que pelas horas de trabalho, o que mais me deixa nervoso é a perda de foco e concentração devido às muitas atividades pequenas. Também a percepção da incapacidade de fazer tudo como deveria ser feito é exasperante. Um certo perfeccionismo e talvez uma excessiva exigência em relação ao próprio desempenho deixam uma pessoa enfurecida quando se percebe que, mesmo dedicando todo o tempo disponível para as atividades, é impossível executar tudo com excelência.

Incomoda-me profundamente também que algumas de minhas atividades são enfadonhas ao extremo. Outras ainda, como a monitoria, são até agradáveis. Mas com a falta de concentração e tempo, é impossível estar sabendo a matéria tanto quanto os alunos esperam (ou tanto quanto eu gostaria de saber para me sentir realizado). Não consigo não me importar com trabalho mal feito, seja devido às minhas próprias exigências, seja devido às supostas exigências dos outros. E assim, com o tempo escasso restante, fica difícil estar satisfeito com a própria dissertação, ao pensar no quanto ela poderia ter melhorado não fossem os outros afazeres. As atividades da igreja recentemente têm me prejudicado, talvez por que eu mesmo exijo de mim mais do que realmente posso contribuir. E no fim das contas, mesmo minha espiritualidade vai para o saco com a falta de tempo. Muito trabalho, pouca reflexão, vida vazia. Jesus já alertara Marta sobre isso.

Não abri mão, no entanto, de atividades de lazer com amigos no fim de semana. Importante, é verdade, principalmente quando me conformo por um momento que não conseguirei fazer tudo como quero. Fácil então se entregar na hora de se decidir pelo lazer e, também, pelo erro do excesso de lazer. E assim, também não consigo descansar de fato. Descanso a mente, mas não o corpo.

Abri agora pouco um livro de teologia, enquanto não conseguia dormir pensando em tudo que preciso fazer. Bonhoeffer, meu guru teológico, fala das últimas e penúltimas coisas. Não vou explicar. Mas isso me fez pensar na minha semana vindoura. Um pouco de ânimo surgiu e alguma vontade por disciplina.

Vou fazer o que puder. Lembrar que o projeto junto ao governo, embora chato ao extremo, é útil e ajudará pessoas necessitadas. Jesus sempre falou dos pobres e somos chamados realmente a ajudá-los – por amor e para preparar o caminho para que a graça chegue a todos. Tentarei ajudar meus alunos da monitoria. Deveriam ter um monitor melhor, não alguém que busca aprender a econometria que não estudou na graduação. Mas não posso fazer mais do que posso. Meu esforço não pode ser apenas para que eu consiga me sentir bem, mas como serviço ao próximo. Não posso querer ser competente e esforçado apenas para reforçar meu ego, nada é mais angustiante que isso, porque o ego é ganancioso.

Talvez aí Deus me ajude. Preciso escrever um texto para o Conselho Mundial de Igrejas e milhões de idéias vêm a minha cabeça. Mas de que maneira estarei servindo a Cristo? Se não conseguir enxergar isso no dia-a-dia, como escreverei sobre isso? Certamente, estarei mais apto a escrever quando meu ódio ao mundo se desvanecer e amá-lo do jeito que ele é, com todos os seus defeitos. O que vejo de errado no mundo deve continuar sendo visto como errado, mas a minha reação não pode ser daquele que se sente pessoalmente incomodado. Não pode ser uma resposta raivosa e vingativa, para quem o mundo incomoda por não satisfazer meus desejos egoístas. A injustiça existe e minha reação deve ser de amor a esse mundo, onde Deus quer que sinais de graça estejam presentes. Não pode ser o desejo de puni-lo simplesmente, de revoltar-se contra tudo.  Agredir com raiva o que existe não leva às pessoas a mensagem da graça e do amor de Cristo pela humanidade. Talvez, por isso, não posso enxergar minha semana com raiva.

quinta-feira, 9 de abril de 2009

Notas sobre a Suécia

Escrevi sobre todos os países pelo qual passei em fins do ano passado, à exceção da Suécia. Injustiça com os suecos, outro povo que consegue, sabe-se lá como, manter elevado padrão de vida para a sua população. Diferentemente dos noruegueses, são mais parecidos com o que temos em nossa imaginação. São mais fechados, apertam mais seus casacos durante o frio, escondem-se em suas casas em meio à neblina. Foram gentis, mas um pouco frios.

Cheguei direto vindo de Oslo, onde tinha conhecido belas gurias. Kil (pronuncia-se Xil) é uma pequena cidade no interior, onde meu amigo Mattias é pastor. Estávamos perto de Karlstad, na região oeste da Suécia, onde a secularização estranhamente não é tão forte. Mattias é um cara legal e me levou pra conhecer os lugares e conversar um pouco, além de me oferecer um colchão. Conversa pouco mesmo, o assunto às vezes acaba, ele é o típico esterótipo do pastor sueco. Pela manhã, fomos a uma das igrejas em que ele trabalha. Curiosamente, lápides cercavam a igreja. Nos jardins, ao lado da porta, em todo o lado. Cemitérios na Suécia ficam realmente junto à igreja, um costume no mínimo interessante. Despedi-me à noite e parti em direção a Estocolmo.

Logo que cheguei em Estocolmo, dei de cara com um "Welcome to Stockholm, the capital of Scandinavia". Arrogante talvez, mas de fato Estocolmo é a maior cidade da região, com cerca de 1,5 milhão de habitantes espalhados em uma vasta área coberta por trens e metrôs. Minhas amigas Jenny e Elin lá me esperavam e, assim, fui recebido na casa da Jenny com uma bela refeição tipicamente sueca. Rena, batatas e um monte de coisas que nunca saberei o que eram.

Jenny tem dois irmãos. Uma quase nem falou comigo (estava um pouco doente), enquanto o outro, um piá de 9 anos, estava nitidamente envergonhado com a minha presença. Aos poucos, ele começou a falar inglês de forma surpreendente. É triste quando você percebe que suecos de 9 anos falam inglês tão bem quanto você e isso é normal. E quando ele tem 20, como um cara que eu encontrei no trem, ele tem o inglês dez vezes melhor que o seu. Tudo bem, o cara que eu encontrei no trem estava lendo Paulo Coelho em sueco e foi assim que começamos a conversar, mas ele era gente boa. Voltando ao moleque, ele se soltou, mas sumiu em direção à cozinha. Minutos depois, enquanto notícias sobre hockey apareciam na TV sueca e passávamos para o canal finlandês, o irmão de Jenny reapareceu. Ele, o pequeno Martin, trouxera consigo uma bela esfera branca que ele segurava com as duas mãos. Uma bola de neve.

Olhei pasmo para a bola de neve que ele estava me oferecendo como presente. Jenny explicou que Martin soubera que um brasileiro vindo da selva e que nunca vira neve estava chegando pra passar dois dias na casa deles. Com medo que não nevasse na semana que eu chegasse (o que de fato se confirmou), ele fez a bola de neve na semana anterior e guardou no congelador. Uma surpresa divertida definitivamente. Crianças muitas vezes nos fazem rir de forma realmente espontânea.

Passeei por Estocolmo e vi que a cidade era bonita, embora estivesse frio e infelizmente escuro. Mulheres bonitas também, mas não como as norueguesas simpáticas e lindas de Oslo. De qualquer forma, pude conhecer um pouco dos costumes de Natal da Suécia, suas atividades e costumes. Assisti inclusive um espetáculo musical de Natal em uma igreja velhíssima de madeira e pude cantar hinos em sueco. Um costume muito comum entre os suecos é cantar em conjunto. Algo da igreja que ainda restou no costume, embora Deus há muito já esteja enterrado para a maioria deles. Uma pena: belos hinos que poucos ainda cantam de coração.

Amigos meus estão na Suécia agora e talvez possam contar melhor o que ocorre por lá através desse blog, mas eu espero um dia poder voltar e ficar mais tempo por lá e aprender mais sobre esse curioso povo.

segunda-feira, 23 de março de 2009

A lenta marcha de Cuba

Ondas calmas de um límpido mar azulado chegam à praia harmoniosamente: enquanto algumas ondas quebram na areia de Varadero em Cuba, outras começam a se formar. E assim se segue sucessivamente. Absurdamente azul esse mar, penso eu. O que explica mesmo o azul que vemos na água? As aulas de física perdidas em algum canto do cérebro não se recuperam. Definitivamente não entendo porque enxergo meus pés na água transparente ao meu redor, enquanto que levantando ligeiramente a cabeça, tudo passa a ter um tom forte de azul.

Afastando-se da praia, está o estranho mundo dos habitantes de Cuba, começando pelo hotel. O setor de turismo recebe viajantes do mundo todo, que gastam seus euros e dólares no país, deixam um pouco de gorjeta e permitem que um garçom de hotel ganhe mais do que um médico muito bem formado em Cuba. Um pouco mais adiante, na porta da rua, charutos e garrafas de rum são precificados com a moeda para turistas, diferente da moeda local do dia-a-dia do cubano. Subitamente, um carro da década de 50 com pintura impecável passa por nós. É um milagre que esteja andando. Não obstante, outros carros da mesma época e alguns Ladas passam em seguida. Depois da Revolução em 1959, importar carros de países capitalistas se tornou praticamente impossível. Da entrada do hotel, entro no ônibus escolar de decênios atrás, que nos leva até o Seminário Teológico de Matanzas. É lá que a Comissão das Igrejas em Assuntos Internacionais, importante estrutura do Conselho Mundial de Igrejas, se reúne em março de 2009. 

A pobreza está em todo lugar, mas não uma pobreza de pessoas sem educação.  Com pinturas desfeitas nos prédios e falta de infra-estrutura, é verdade, mas com pessoas instruídas, mesmo vivendo em condições complicadas. Nossos irmãos da Europa Oriental, embora reconheçam o papel nefasto do embargo norte-americano e a abertura muito maior do regime cubano em termos relativos, lembram de seus tempos de opressão comunistas. Alguns africanos e latino-americanos olham com esperança para Cuba, querendo crer na solidariedade socialista e identificando-a com a ética cristã. Ingênuo, provavelmente. 

Músicos do fantástico coro da cidade de Matanzas, após venderem seus CDs para nós, batem papo comigo. Segundo eles, as pessoas não se importam muito com a política. O que as incomoda é a falta de dinheiro e bens essenciais. Gostariam de mais abertura, maior acesso aos mercados, mas valorizam seu bom nível de educação e sua saúde, resultado das políticas que vieram após a Revolução. A tirania de Fidel significou melhora na vida de muita gente. No entanto, isso não muda o fato dele ser um ditador e decidir os rumos do país como bem entende. 

A música faz parte da vida deles: a qualidade é impressionante. Fazem festas o tempo todo, são muito receptíveis e amáveis. Mudanças constitucionais no início da década de 1990 permitiram a volta oficial da religião em Cuba. Nas igrejas históricas em Havana, comunidades muito ativas prestam culto. Que continuem as mudanças. Que os mercados possam chegar a mais pessoas, que os Estados Unidos derrubem esse danoso embargo comercial. Que os cubanos não percam suas conquistas em educação e saúde nesse processo de abertura. Que Deus esteja com Cuba nessa lenta marcha em direção ao desenvolvimento. Amém.

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Livros

Cresci lendo livros. Não porque eu assim o quisesse, mas porque fui literalmente obrigado pela minha diligente mãe. Na época, assim como hoje, era um cara bem preguiçoso. Mas com o estímulo de minha irmã, que definitivamente não é preguiçosa, a leitura constituiu-se um hábito e até um gosto depois de algum tempo. Era um bom passatempo, tanto que li coisas que não deveria ter lido (não, não lia histórias eróticas, embora o início da adolescência seja hormonalmente pérfido). Talvez 13 anos não seja a melhor época da vida para ler A Morte de Ivan Ilitch ou um monte de outros livros que acabei lendo e não aproveitando coisa alguma...

Depois de um tempo, livro não era apenas gosto. As recompensas por ser uma “pessoa que lê” (grande merda) apareceram. Somado ao bom desempenho em sala de aula, a leitura tornou-se um dos pilares de minha auto-estima intelectual, um alimento à vaidade, um meio de se tornar superior aos outros na eterna competição em que vivemos aqui nesse mundo. A leitura era uma bela arma em conversas de boteco, um meio de mostrar erudição. Eu já lera quase tudo (ou ao menos pensava isso) e foi talvez aí que perdi muito do gosto pela leitura. Lia para dizer que li, não pela leitura em si. Em suma, a leitura se tornou um meio de ser mais bem aceito pelos outros.

No entanto, ainda restava alguma coisa do velho Thomas que gostava de ler. Alguns livros, que por acaso pegamos em um dia enfadonho de verão, marcam nossas vidas de alguma forma e fazem-nos voltar a querer ler avidamente em busca de respostas a perguntas que fazemos a nós mesmos. Quando temos preguiça de ver muitos filmes, o livro é um dos poucos meios restantes de se sentir identificado com algo ou alguém, de pensar em idéias novas, de abrir um pouco a cabeça.

Talvez John Steinbeck tenha sido um divisor de águas. Em um domingo qualquer, a biblioteca da igreja estava doando livros velhos. Um volume amarelado (tanto a capa quanto às páginas) de uma velha tradução de A Leste do Éden me pareceu atraente: aquele cheiro inconfundível de traças, digno de um antiquário.  Tendo apenas ouvido falar desse autor americano e que descobri depois que ganhara o Nobel, guardei o livro por anos em uma estante acumulando um bocado de pó. Enfatuado em um dia quente de férias na cidade, resolvi pegá-lo e espirrar um pouquinho no calor. Tenho um pouco de pena até hoje de tê-lo emprestado e perdido aquela tradução da década de 40, embora tenha feito alguém mais ler Steinbeck, um dos meus deveres nesse mundo. Após uma chuvarada na mochila de meu amigo, recebi de volta uma tradução mais nova e pior. Felizmente, existe outra nova tradução que aparentemente é boa.

A partir desse livro, Steinbeck conseguiu me deixar uma impressão profunda, apesar de meu excesso de racionalismo frio. É um autor que fala de sentimentos comuns a todos. Seus personagens são pessoas simples, mas sempre mostrando de forma clara as paixões de qualquer ser humano. A busca pela aceitação, presente em todos, mesmo adultos maduros, aparece no comportamento dos personagens ao longo de todo o livro. Uma coisa engraçada para alguém que também através da leitura buscava um pouco de aceitação.

Evidentemente, outros livros ficaram na minha cabeça antes e depois. Não posso deixar de fazer um tributo ao Mundo de Sofia (acho que muitos gostam desse livro), que eu folheio até hoje quando vai-lá-Deus-saber-por-que procuro informações sobre algum filósofo e não posso, não consigo ou não quero ler o original. O Contraponto de Aldous Huxley (aquele do Admirável Mundo Novo) também me fez pensar, assim como alguns livros teológicos que mudaram meu jeito de entender a fé, essa coisa tão estranha que alguns ainda insistem em ter.

É preciso alguma maturidade para ler e entender livros. Não que eu seja maduro, mas alguns livros exigem vida prévia. O problema é que, até que alguns livros realmente falem contigo, é preciso que a leitura tenha se tornado um costume (pelo menos para os preguiçosos de natureza como eu). Quem me dera ter lido Crime e Castigo depois de ter entendido o que é a idéia cristã da graça: aquilo que só depois de 22 anos freqüentando uma igreja luterana, arauto da graça, eu entendi com clareza como algo concreto na minha vida.

Talvez devesse ler Crime e Castigo de novo agora. Não tenho certeza, mas acredito que só sabendo com clareza o que é graça é possível entender direito esse livro. Deve-me faltar algo, mas eu não entendo porque esse livro é tão famoso se a idéia mais fundamental do livro é pouco popular. Crime e Castigo não acaba na culpa – esta sim comum a todos -, e talvez por isso, o livro não tenha um bom título:  parece faltar um pedaço. Mas não se preocupem, longe de eu querer ser maior que Dostoievski. 

sábado, 24 de janeiro de 2009

Nomadismo

Minha vida como mestrando foi muito conturbada. Cheguei a São Paulo no dia 30 de dezembro de 2006 com meu pai, que só veio ajudar no começo, e me ajeitei numa pensão. Passei o réveillon por lá e dormia sempre em um quarto que tinha paredes de divisórias feitas de plástico. Para completar, um dos meus vizinhos de pensão tinha um microfone dentro da garganta e sempre arranjava companhia para fazer café às duas da manhã na cozinha, muito próxima ao meu quarto. Ele realmente falava baixo, mas sua voz ressoava por toda a casa. Tenho propensão à insônia até no mais absoluto silêncio. Não preciso dizer mais nada

Tendo começado alegremente as aulas no dia 3 de janeiro, consegui, depois de muitos cafés (meus e do meu vizinho de voz ressoante) e noites mal-dormidas (tanto devido a estudo quanto devido a cafés alheios), arranjar um apartamento para morar. O menor apartamento de dois quartos que eu já vira, em condições que não eram das melhores, apesar da boa vontade da proprietária, pessoa aberta para ouvir seus inquilinos. Morei com um cara que já tinha morado com mais de centenas de pessoas em sua vida de estudante, o lendário TTF. Torcedor religioso e irracional do Galo, ele foi parar no BNDES um ano depois para agitar as noites cariocas, deixando-me sem alternativas para continuar morando no apartamento dividindo os custos. O remédio foi sair.

Os novos alunos do primeiro ano do mestrado (eu já estava no segundo) receberam-me amistosamente em sua elegante república. Tudo isso até perceberem que, por trás de meu fenótipo oriental metódico e esforçado, escondia-se o maior bagunceiro da casa (talvez concorrendo com outro colega, o tal de GT, pessoa de traços psicológicos sui generis). GRA, um mineiro também lendário que estudava deitado na cama o dia inteiro parecendo um bicho-preguiça; e HD, um brasiliense que joga cricket e que fazia o papel de mãe de GT, controlando suas travessuras, sofreram com minha magnânima falta de organização. Sorte deles que eu não tenho barba para deixar vestígios pela casa.

Antes de eu chegar, porém, morava um roedor na casa, que fora parar no Chile para fazer um curso. A iminente volta de RRG para o Brasil levou meus colegas ao desespero: cinco pessoas em um apartamento de três quartos era impensável, principalmente tendo Thomas entre eles. O remédio foi enviar Thomas de volta à vida nômade. Malandro e Guilherme, também amigos conhecidos na pós-graduação, tinham um quarto vago por uns meses, onde me instalei. Enquanto isso, comecei a procurar por apartamentos para janeiro. Meu ex-colega gaúcho Felipe teria que em breve abandonar o apartamento em que morava, vendido pelo seu proprietário sem prévio aviso (aluguel sem contrato dá nisso). Após muitas visitas e ligações, não encontramos apartamento, e fomos parar no meu ex-apartamento, no qual vivi com o velho TTF. Por circunstâncias incomuns, ele se encontrava vago seis meses depois de tê-lo abandonado.

O surgimento de uma boca de fumo na praça em frente de casa, a presença de três viaturas de policiais e a chegada de Juninho, amigo de UFRGS que tinha vindo fazer mestrado, foram fatores suficientes para decidirmos por sair. Conversamos com a proprietária e as coisas meio que se acertaram. Desde minha chegada a São Paulo, tinham se transcorrido para mim dois anos e cinco mudanças. Procurando apartamentos, entramos em vários que não nos agradaram. Passamos então pelo ex-prédio em que o Felipe morava, para que ele pudesse buscar correspondência. Por acaso, havia um apartamento legal e barato pra alugar: a sexta mudança é iminente.

Mais inusitado que isso, só encontrar o José Genoíno do PT em um supermercado de bairro em uma parte não muito fina do Butantã. Particularmente, no supermercado Violeta que fica na rua Boturoca. Isso é lugar de se encontrar ex-deputado federal? De qualquer maneira, logo devemos sair de perto desses lugares, onde Genoíno, bocas de fumo e estudantes da USP convivem em paz e harmonia. Quem sabe agora eu me torno sedentário e faço a revolução que meus antepassados fizeram no neolítico. Talvez a instabilidade do nomadismo explique a situação paleolítica da minha dissertação de mestrado.

sábado, 17 de janeiro de 2009

Se os tchecos não falassem tcheco...

No frio e no escuro, fui em direção à plataforma do trem na estação de Fulda, alguma cidadezinha no meio da Alemanha. Dois oficiais da Deutsche Bahn conferiam os bilhetes dos poucos passageiros do trem noturno em direção à Praga, capital da República Tcheca. O trem era antigo, mas como estava praticamente vazio, deitei-me com certo conforto sobre meu próprio mochilão. Já tinha passado da meia-noite, mas eu só chegaria em Praga às 8 da manhã, após uma surpreendente tranqüila noite de sono.

Já havia amanhecido, mas a estação de Praga conservava ainda uma iluminação turva. É como se os anos de comunismo tivessem deixado marcas impossíveis de se apagar. Por um momento, lembrei-me do livro do autor tcheco Kundera, que lera recentemente. A estação de Praha Holešovice não era moderna como as da Alemanha e em quase nada ajudava um pobre turista a encontrar o metrô para ir à estação central de Praga (em tcheco, Praha hlavní nádraží). Consegui, após alguma luta, comprar dinheiro tcheco e ligar para uma de minhas amigas que me esperavam na estação central. Contei-lhes da minha aflição em não entender uma palavra daquela estranha língua: era a primeira vez que de fato eu me deparava com uma língua eslava. Ainda que o alfabeto não fosse cirílico, de nada adiantava eu conhecer as letras quando oito consoantes e uma vogal juntas formavam uma palavra pronunciável (pelo menos os tchecos diziam que era pronunciável e eu ingenuamente acreditei neles).

A República Tcheca não é pobre, apesar da impressão deixada pela estação de trem. Segundo contaram minhas amigas tchecas, eles são algo entre a Europa Oriental e a Europa Ocidental, tanto em questões culturais como em questões de renda. Os palácios e antigas construções de Praga são extremamente bonitos: tudo conservado nas melhores condições. Conseqüentemente, o fluxo de turistas é imenso. Em geral, um bando de italianos gesticulando e falando alto, como é típico deles: aquela entonação característica, as vogais bem abertas com um ligeiro cantarolar irritante para alguns, maravilhoso para outros.

Conhecer os belos prédios tchecos, que não foram destruídos por guerras como aconteceu na Alemanha, é algo que vale bastante a pena. A estátua do famoso pré-reformador Jan Hus acima na foto é a prova disso. Mas ter guias simpáticas de lá sempre ajuda, principalmente se são suas amigas. Com elas, fui até para um culto da igreja protestante tcheca. Na Suécia, sabendo algumas regras de pronúncia era possível cantar os hinos. Na República Tcheca, não. Preposições como “z” não são pronunciáveis na minha cabeça, muito menos acentos circunflexos virados de ponta-cabeça em cima de consoantes. Mas para eles é: minha amiga Martina não escondia o riso em relação à minha dificuldade. Chegado o momento da pregação do pastor tcheco, achei que era um excelente momento para observar a arquitetura da igreja.

De qualquer forma, gostei muito de Praga. Minhas outras amigas Žaneta e Ester tinham alguma dificuldade no inglês, mas a gente se comunicava do jeito que dava, com a ajuda da Martina. Por duas vezes, sentamos para beber algumas das famosas cervejas tchecas. Embora eu não seja exatamente um cervejeiro, “breaco” (como dizem os paulistas), ébrio ou qualquer coisa parecida, a verdadeira cerveja Pilsen, a Pilsner Urquell, tem um excelente gosto amargo e característico. A Budweiser tcheca é muito, mas muito melhor do que a Budweiser americana. Com amigas, construções antigas e bonitas, e boas cervejas, fica fácil querer voltar pra Praga.