sábado, 24 de janeiro de 2009

Nomadismo

Minha vida como mestrando foi muito conturbada. Cheguei a São Paulo no dia 30 de dezembro de 2006 com meu pai, que só veio ajudar no começo, e me ajeitei numa pensão. Passei o réveillon por lá e dormia sempre em um quarto que tinha paredes de divisórias feitas de plástico. Para completar, um dos meus vizinhos de pensão tinha um microfone dentro da garganta e sempre arranjava companhia para fazer café às duas da manhã na cozinha, muito próxima ao meu quarto. Ele realmente falava baixo, mas sua voz ressoava por toda a casa. Tenho propensão à insônia até no mais absoluto silêncio. Não preciso dizer mais nada

Tendo começado alegremente as aulas no dia 3 de janeiro, consegui, depois de muitos cafés (meus e do meu vizinho de voz ressoante) e noites mal-dormidas (tanto devido a estudo quanto devido a cafés alheios), arranjar um apartamento para morar. O menor apartamento de dois quartos que eu já vira, em condições que não eram das melhores, apesar da boa vontade da proprietária, pessoa aberta para ouvir seus inquilinos. Morei com um cara que já tinha morado com mais de centenas de pessoas em sua vida de estudante, o lendário TTF. Torcedor religioso e irracional do Galo, ele foi parar no BNDES um ano depois para agitar as noites cariocas, deixando-me sem alternativas para continuar morando no apartamento dividindo os custos. O remédio foi sair.

Os novos alunos do primeiro ano do mestrado (eu já estava no segundo) receberam-me amistosamente em sua elegante república. Tudo isso até perceberem que, por trás de meu fenótipo oriental metódico e esforçado, escondia-se o maior bagunceiro da casa (talvez concorrendo com outro colega, o tal de GT, pessoa de traços psicológicos sui generis). GRA, um mineiro também lendário que estudava deitado na cama o dia inteiro parecendo um bicho-preguiça; e HD, um brasiliense que joga cricket e que fazia o papel de mãe de GT, controlando suas travessuras, sofreram com minha magnânima falta de organização. Sorte deles que eu não tenho barba para deixar vestígios pela casa.

Antes de eu chegar, porém, morava um roedor na casa, que fora parar no Chile para fazer um curso. A iminente volta de RRG para o Brasil levou meus colegas ao desespero: cinco pessoas em um apartamento de três quartos era impensável, principalmente tendo Thomas entre eles. O remédio foi enviar Thomas de volta à vida nômade. Malandro e Guilherme, também amigos conhecidos na pós-graduação, tinham um quarto vago por uns meses, onde me instalei. Enquanto isso, comecei a procurar por apartamentos para janeiro. Meu ex-colega gaúcho Felipe teria que em breve abandonar o apartamento em que morava, vendido pelo seu proprietário sem prévio aviso (aluguel sem contrato dá nisso). Após muitas visitas e ligações, não encontramos apartamento, e fomos parar no meu ex-apartamento, no qual vivi com o velho TTF. Por circunstâncias incomuns, ele se encontrava vago seis meses depois de tê-lo abandonado.

O surgimento de uma boca de fumo na praça em frente de casa, a presença de três viaturas de policiais e a chegada de Juninho, amigo de UFRGS que tinha vindo fazer mestrado, foram fatores suficientes para decidirmos por sair. Conversamos com a proprietária e as coisas meio que se acertaram. Desde minha chegada a São Paulo, tinham se transcorrido para mim dois anos e cinco mudanças. Procurando apartamentos, entramos em vários que não nos agradaram. Passamos então pelo ex-prédio em que o Felipe morava, para que ele pudesse buscar correspondência. Por acaso, havia um apartamento legal e barato pra alugar: a sexta mudança é iminente.

Mais inusitado que isso, só encontrar o José Genoíno do PT em um supermercado de bairro em uma parte não muito fina do Butantã. Particularmente, no supermercado Violeta que fica na rua Boturoca. Isso é lugar de se encontrar ex-deputado federal? De qualquer maneira, logo devemos sair de perto desses lugares, onde Genoíno, bocas de fumo e estudantes da USP convivem em paz e harmonia. Quem sabe agora eu me torno sedentário e faço a revolução que meus antepassados fizeram no neolítico. Talvez a instabilidade do nomadismo explique a situação paleolítica da minha dissertação de mestrado.

sábado, 17 de janeiro de 2009

Se os tchecos não falassem tcheco...

No frio e no escuro, fui em direção à plataforma do trem na estação de Fulda, alguma cidadezinha no meio da Alemanha. Dois oficiais da Deutsche Bahn conferiam os bilhetes dos poucos passageiros do trem noturno em direção à Praga, capital da República Tcheca. O trem era antigo, mas como estava praticamente vazio, deitei-me com certo conforto sobre meu próprio mochilão. Já tinha passado da meia-noite, mas eu só chegaria em Praga às 8 da manhã, após uma surpreendente tranqüila noite de sono.

Já havia amanhecido, mas a estação de Praga conservava ainda uma iluminação turva. É como se os anos de comunismo tivessem deixado marcas impossíveis de se apagar. Por um momento, lembrei-me do livro do autor tcheco Kundera, que lera recentemente. A estação de Praha Holešovice não era moderna como as da Alemanha e em quase nada ajudava um pobre turista a encontrar o metrô para ir à estação central de Praga (em tcheco, Praha hlavní nádraží). Consegui, após alguma luta, comprar dinheiro tcheco e ligar para uma de minhas amigas que me esperavam na estação central. Contei-lhes da minha aflição em não entender uma palavra daquela estranha língua: era a primeira vez que de fato eu me deparava com uma língua eslava. Ainda que o alfabeto não fosse cirílico, de nada adiantava eu conhecer as letras quando oito consoantes e uma vogal juntas formavam uma palavra pronunciável (pelo menos os tchecos diziam que era pronunciável e eu ingenuamente acreditei neles).

A República Tcheca não é pobre, apesar da impressão deixada pela estação de trem. Segundo contaram minhas amigas tchecas, eles são algo entre a Europa Oriental e a Europa Ocidental, tanto em questões culturais como em questões de renda. Os palácios e antigas construções de Praga são extremamente bonitos: tudo conservado nas melhores condições. Conseqüentemente, o fluxo de turistas é imenso. Em geral, um bando de italianos gesticulando e falando alto, como é típico deles: aquela entonação característica, as vogais bem abertas com um ligeiro cantarolar irritante para alguns, maravilhoso para outros.

Conhecer os belos prédios tchecos, que não foram destruídos por guerras como aconteceu na Alemanha, é algo que vale bastante a pena. A estátua do famoso pré-reformador Jan Hus acima na foto é a prova disso. Mas ter guias simpáticas de lá sempre ajuda, principalmente se são suas amigas. Com elas, fui até para um culto da igreja protestante tcheca. Na Suécia, sabendo algumas regras de pronúncia era possível cantar os hinos. Na República Tcheca, não. Preposições como “z” não são pronunciáveis na minha cabeça, muito menos acentos circunflexos virados de ponta-cabeça em cima de consoantes. Mas para eles é: minha amiga Martina não escondia o riso em relação à minha dificuldade. Chegado o momento da pregação do pastor tcheco, achei que era um excelente momento para observar a arquitetura da igreja.

De qualquer forma, gostei muito de Praga. Minhas outras amigas Žaneta e Ester tinham alguma dificuldade no inglês, mas a gente se comunicava do jeito que dava, com a ajuda da Martina. Por duas vezes, sentamos para beber algumas das famosas cervejas tchecas. Embora eu não seja exatamente um cervejeiro, “breaco” (como dizem os paulistas), ébrio ou qualquer coisa parecida, a verdadeira cerveja Pilsen, a Pilsner Urquell, tem um excelente gosto amargo e característico. A Budweiser tcheca é muito, mas muito melhor do que a Budweiser americana. Com amigas, construções antigas e bonitas, e boas cervejas, fica fácil querer voltar pra Praga. 

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Alemães

O povo alemão é definitivamente um povo bem curioso. Na minha estadia na Alemanha, ouvi muita coisa sobre essa gente e também presenciei algumas cenas curiosas.

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Sempre ouvira falar como tudo funcionava perfeitamente na Alemanha. Um lugar em que as coisas são eficientes. Talvez não tenham a fama de extrema pontualidade que os ingleses têm, mas era de se esperar que os trens chegassem na hora.

No dia que cheguei à Alemanha, desci na estação central de Nürnberg e encontrei velhos amigos: a Mariana e o Vanderlei. A primeira estava indo embora justamente quando eu estava chegando: oi e tchau. Do segundo eu seria hóspede. No entanto, o atraso do trem acabou com todos meus planos de apenas cumprimentar a Mariana e despachá-la em seguida (só posso falar uma coisa dessas porque ela é minha amiga de infância). Por algum motivo, a Alemanha estava fazendo algumas manutenções em trens. Como o primeiro trem atrasou, ela iria perder o segundo e o terceiro sucessivamente. Enquanto isso, ela tentava ligar pra uma amiga que iria buscá-la no seu destino, porque ela possivelmente chegaria bem atrasada. Antes disso, já tínhamos corridos como baratas tontas cheios de malas atrás de informações sobre trens alternativos que a levassem ao mesmo destino, procurando nas listas amarelas as partidas de trens, falando com o pessoal do balcão de informações, etc. No fim das contas, ela se atrasou e não conseguiu falar com a amiga. O fim do mito da eficiência.

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Alguns dias depois, cheguei em Wittenberg, cidade onde iniciou-se a Reforma Luterana com as 95 teses expostas na porta da Igreja do Castelo da cidade em 1517. Encontrei um senhor muito gente boa que provavelmente foi contemporâneo de Lutero. Obviamente, ele não falava inglês. Assim, meu parco alemão somado a gestos foram as formas de comunicação empregadas, mas a gente se entendeu bem enquanto ele me levava à cidade velha.

Depois de ter visitado o museu na casa onde Lutero morara e as igrejas históricas, voltei à estação. Assim que cheguei lá, uma vontade absurda de ir ao banheiro (número 1) surgiu. Precisava de €0,50 para poder usufruir do banheiro. Tremendo, abri o zíper da minha carteira e fui empilhando ansiosamente as moedas de €0,10 e €0,05 no receptor preso à maçaneta da porta do banheiro. Completada a soma, a porta não abria. Dã. A porta só aceitava moedas de €0,50. Suando frio e me segurando tenso, fui em direção ao bar onde vendia-se wurst e pão. Já sabia que a atendente, uma senhora de fisionomia nada simpática, não falava inglês. Novamente, tentei recorrer ao meu pseudo-alemão. A língua alemã tem formas de tratamento informal e formal. Para “você”, há o termo informal “du” e o termo formal “Sie”. Como bom brasileiro não-acostumado a formalidades, cheguei pra mulher que me fitava dizendo: “Entschuldigung, kannst du...”. A mulher abruptamente interrompeu minha fala gritando um “Können Sie!!!” com os olhos flamejantes. Ainda em estado de choque, suando frio e tremendo, pedi desculpas e ela logo percebeu que eu precisava trocar moedas. Peguei avidamente as duas moedas como se valessem 50 euros e não 50 centavos cada. Pelo menos, pude acabar com minha ansiedade em seguida no mictório.

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O mijo rende muitas histórias. Voltando da República Tcheca, já em território alemão, entrei no trem e pensei em ir ao banheiro. Pelo menos desta vez não precisava pagar. A porta do banheiro sinalizava “banheiro livre”: nada mais natural do que abrir a porta. No entanto, a porta esbarrou em algo. Quando o algo começou a esbravejar palavras em alemão, provavelmente me amaldiçoando pelo tom, percebi que o algo era alguém. Não consegui ver a pessoa, mas pedi desculpas e voltei à minha poltrona. Afinal, a vontade não era tanta assim.

Meia hora depois, já quase na estação de destino, resolvi então peregrinar novamente em direção ao banheiro. Desta vez, a porta estava entreaberta. “Graças a Deus”, pensei. Não iria agüentar muito tempo mais. Empurrei a porta já entreaberta e a mesma voz pouco amistosa surgiu de dentro do banheiro esbravejando qualquer coisa que não entendi nem quero entender. Tive vontade de ensinar pra aquele velho de bexiga frouxa que quando se usa o banheiro, principalmente em locais públicos, fecha-se a porta, pelo menos em países selváticos como o Brasil. Respirei fundo e voltei ao meu lugar. Fiquei à espreita pra ver se o velho saía e só depois disso pude me livrar da água do joelho.

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Na última cidade que visitei, Munique, resolvi parar e comer um sorvete Häagen-Dazs. Uma atendente linda, simpática e de riso fácil salvou minhas impressões negativas da Alemanha. Além disso, indicou-me um excelente sabor de sorvete. Algo se salva ainda naquele país.

PS: Na verdade, gostei bastante da Alemanha. Mas permitam-me certa licença poética. Feliz Natal.

sábado, 20 de dezembro de 2008

Vitrines e canais


Um homem caminha rapidamente em uma ponte que passa por cima de um canal. Ao atravessar a ponte, ele de repente pára em frente a uma porta. Da mesma forma que ele abriria a porta de um banheiro público, ele abre a vitrine iluminada por uma lâmpada vermelha. Não deixa de estar simplesmente satisfazendo uma espécie de necessidade. Ao lado dessa porta envidraçada, há outras iguais. Todas com uma luz vermelha. Em algumas, há mulheres em trajes sumários, oferecendo-se por quantias que superam € 50. Em outras, cortinas fechadas encobrindo o vidro, como na porta em que o homem entrou: é o momento do consumo.


O bairro da luz vermelha de Amsterdam é de fato curioso para quem não está acostumado. A hipocrisia moralista é substituída pela legalização daquilo que de fato sempre acontece, não importa o que a lei diga. As mulheres ficam em vitrines, o que escancara o fato da mulher se tornar mercadoria no mercado da prostituição. Enquanto isso, outros homens, alguns de distinta aparência, entram em outras portas. Em alguns corredores, mulheres horríveis. Em outros, mulheres realmente bonitas, cujos preços imagino serem altíssimos.


Amsterdam é conhecida também por sua tolerância às drogas. Tudo o que há de pior da Europa em termos de paz social, respeito e ordem deve ter a aspiração de passar alguns dias nessa cidade. Uma loja com um grande cogumelo na porta vendendo de tudo divide espaço com uma loja que vende flores, incluindo os bulbos das famosas tulipas holandesas: famosas não apenas por sua beleza, mas por terem sido protagonistas de uma crise econômica no século XVIII não muito diferente da vivenciada hoje com o mercado de crédito imobiliário. Mas não apenas tulipas, maconha oficial holandesa também é vendida. Encontramos até “starter kits” de maconha. A prova disso está devidamente registrada por fotos, que certamente não serão divulgadas para não acabar com minha futura e brilhante carreira política.


Esquece-se, todavia, de outras características da Holanda. De fato, a língua não é das mais belas de se ouvir, embora haja muitas mulheres belas. A arquitetura de seu centro antigo é bastante peculiar, com suas avenidas cortadas por inúmeros canais: tecnologia de séculos atrás segurando o mar através de diques.


Eu e meu amigo Philipe, ex-blogueiro do Rabiscos e atual do simples notas, estivemos visitando diversas partes de Amsterdam. Ele está fazendo a pós-graduação dele em Economia no Timbergen Institute, centro de excelência na área. Como grande admirador de música clássica, ele comprou ingressos para um concerto no Concert Gebouw, onde toca uma das melhores orquestras do mundo. O salão lotado de senhores e senhoras extremamente bem-vestidos era um contraste com o que havia de mais vil no bairro da Luz Vermelha. Provavelmente, alguns deles freqüentam assiduamente o bairro, entrando como se não quisessem nada (a situação é bem outra) em qualquer vitrine que lhe agrade mais. É a imagem que fica da cidade, mesmo tendo ouvido o excelente desempenho da orquestra com as obras de Dvorak e com o desempenho do reconhecido pianista brasileiro Nelson Freire.


Na manhã seguinte, abandonei o quarto do Philipe com banheiro pessoal em um bairro de estudantes. Ambiente agradável em que a cozinha é dividida com os demais moradores do andar. O essencial está ali para um estudante, o que seria o ideal para mim por exemplo na USP, mas que não existe no Brasil. No Brasil, prefere-se subsidiar o restaurante universitário para que todos os alunos das universidades públicas, um bando de famintos, possam comer decentemente pagando a justa quantia de R$ 1,90.



De Amsterdam, meu trem seguiria em direção à Düsseldorf, e então para a capital alemã Berlin.

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

As belezas de Oslo


15:30. É noite na Noruega. Final de novembro e início de dezembro é a época mais depressiva nos países nórdicos. As noites escuras e longas são quebradas apenas pelo tímido sol que aparece entre 9 e 10 da manhã. É quase como se o sol aparecesse, cruzasse o céu correndo e caísse no horizonte em seguida.

As reuniões de um grupo de trabalho do Conselho Mundial de Igrejas que tivemos aqui na Kirken Hus (a tradução literal seria "Casa da Igreja") iniciavam às 9 horas e terminavam às 6 da tarde. Iniciavam à noite e terminavam à noite. Kirken Hus é onde está localizada a parte administrativa da Igreja da Noruega, que pertence ao Estado. Essa igreja, portanto, é financiada por impostos pagos pelos cidadãos noruegueses. Cerca de 83% dos noruegueses hoje são membros da Igreja da Noruega, que pertence ao ramo luterano do Cristianismo. Ainda assim, são poucos os membros ativos, dada a intensa secularização da região.

Após o dia (ou a noite, que seja...) de trabalho, não havia mais tempo para conhecer Oslo, afinal a escuridão já tinha tomado conta de tudo. Pelo menos, algum setor ou departamento da Igreja da Noruega dava um jeito de nos pagar jantares em excelentes restaurantes. Conheci típicos pratos natalinos noruegueses, além de outras iguarias como seus pescados. É bom lembrar que a Noruega é um país que depende em boa parte de pesca, assim como também de petróleo.

Na quinta-feira, sem mais trabalho a ser feito, pude passear um pouco. Passei pelo Parlamento, pelo Palácio Real e pelo moderno Museu do Prêmio Nobel da Paz. Mas mais interessante do que isso, as recepcionistas do hotel já me indicavam que as mulheres norueguesas deveriam ser bem atraentes. Existe um certo fetichismo em relação aos países nórdicos que eu pensava ser exagerado. Não é exagero. Mulheres lindas para todos os lados, com seus cabelos loiros na sua variação mais clara e natural. Não é simplesmente por serem loiras, mas a concepção de rosto delas em especial é muito atrativa. Sem contar que costumam ser simpáticas e solícitas. É um povo muito mais aberto e amigável do que eu supunha, dado o inóspito clima da região.

Na frente do Palácio Real, estava ocorrendo alguma cerimônia. Uma pequena exibição militar aparentemente devido à saída do Rei. Não estava certo disso e resolvi perguntar pra uma guria linda que ajudava a cuidar de uma turma de crianças. Começamos uma amigável conversa que durou até o momento em que ela perguntou o que eu estava fazendo em Oslo. Respondi que estava em uma reunião de igreja na sede da Igreja da Noruega. Quase instantaneamente, ela se afastou e passou a dar atenção para as crianças. Povo ateu esse... Bom, sem problemas, não havia tempo para mais nada, precisava pegar o trem para a Suécia.

Antes deixar Oslo de vez e pegar o trem, almocei pela última vez na Kirken Hus. Uma das moças que trabalhava ali era chinesa ou descendente de chineses. Mesmo as chinesas norueguesas são mais bonitas que as que geralmente eu vejo: provavelmente a chinesa mais bonita que já vi em vida. Infelizmente, nossa comunicação estava prejudicada: seu inglês não era muito bom (algo muito raro na Noruega, por isso acredito que ela realmente fosse chinesa). Mas interessante foi o comentário da outra garçonete norueguesa em meio a risadas: "Foi você que estava tocando piano ontem? Toca mais um pouco! Acho que ela (a chinesinha) gostou bastante!". E continuou rindo ao mesmo tempo que a simpática chinesa sorria timidamente com aquela reserva e embaraço tipicamente oriental. Mas não havia tempo para mais nada novamente. Comprei um sanduíche e agradeci. Ela balbulciou um "you are welcome" e eu deixei a bela Oslo para trás em direção à Suécia.

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Não poderia viver no Uruguai

Não poderia viver no Uruguai. Em qualquer lugar de Montevideo é possível achar algo feito com doce de leite. E não é qualquer doce de leite, é o dulce de leche uruguayo. Para um viciado irrecuperável como eu, seria a perdição total. Acho que até conseguiria engordar (coisa que não acontece desde que passei a morar sozinho). O balde de 3 kg de doce de leite Conaprole tornou-se meu sonho de consumo, só não realizado pelo medo da alfândega no Brasil. Embora fosse ser verdade, dificilmente convenceria alguém que um balde de doce de leite é para consumo pessoal. Contentei-me com dois vidrinhos de 1kg, sendo um destinado ao meu orientador, também um exímio apreciador do produto. Em matéria de laticínios, os uruguaios são mestres, com meu perdão dos meus caros amigos mineiros, que também são competentes. De qualquer maneira, os mineiros deveriam ir para Montevideo a fim de aprender que não inventaram o doce de leite.

Mas há outras especificidades em Montevideo, cidade que conheci na semana retrasada. No país de apenas 3 milhões de habitantes, metade mora na capital. Além disso, jogam truco com baralho espanhol e tomam mate assim como os gaúchos. Mais do que isso, tomam mate todos os dias em qualquer lugar, carregam pelas ruas, shoppings, praças, escolas e escritórios em qualquer hora e dia da semana. Desenvolveram também uma técnica de prender a térmica no braço e com um leve movimento, enchem sua cuia (que eles chamam de mate, enquanto a erva é simplesmente chamada de yerba). O mais curioso é que toda erva-mate do Uruguai é importada. Qual não foi minha surpresa ao ver que a principal marca de erva deles vem de... Encantado, Rio Grande do Sul. Mesmo assim, os gaúchos deveriam ir para Montevideo a fim de aprender que não são os maiores viciados em mate no mundo.

Ao chegar na cidade, entrei em contato com uma amiga uruguaia metodista, com quem trabalhei na Assembléia do Conselho Mundial de Igrejas em Porto Alegre. Sua família, composta pelos pais e as duas filhas (e também o namorado de uma delas), me recebeu de braços abertos. Fui convidado para um jantar, assisti o trabalho da Igreja Metodista com os moradores de rua (algo parecido com o que fazemos em São Paulo) e fui convidado para falar sobre minha realidade no grupo de jovens deles. Fui tão bem tratado que até sentirei falta desses amigos, para quem reclama que sou pouco nostálgico. Essa gentil família é muito ligada à igreja: o pai, pastor metodista; a mãe, pastora valdense. Sim, os valdenses são os primeiros protestantes do mundo, muito antes de Lutero, mas que ficaram confinados em alguma região da Itália, após o início do movimento liderado por Pedro Valdo em 1180. Também é bom que os luteranos aprendam que não são os primeiros.

A mistura de cultura hispânica com um pouco de italiana deixou suas marcas nas belas faces das uruguaias, que têm uma beleza particular e atraente. A memória dos tempos áureos está nos prédios antigos e bonitos da capital uruguaia, que infelizmente é visivelmente decadente. O povo é extremamente receptivo, a maioria é muito cordial e ajuda turistas brasileiros meio perdidos. Não digo isso apenas pela família que me recebeu, mas também por outros que sempre estavam dispostos a ajudar ou a ter uma boa conversa. Embora etnicamente e culturalmente sejam muito parecidos com os porteños, os uruguaios são muito cordiais. Talvez alguns de Buenos Aires (e mesmo alguns gaúchos) devessem ir para Montevideo para aprender que também podem não ser arrogantes e que o Uruguai não é uma colônia deles.

Não posso, entretanto, cometer injustiças: conheci um porteño muito gente boa na conferência que participei: inclusive muito crítico dos excessos de seus conterrâneos. É evidente que o argentino arrogante é apenas um estereótipo. Havia muitos argentinos legais no evento, mas talvez porque o assunto da conferência é para pessoas mais legais (não me livrei por completo da arrogância gaúcha). A conferência tratava de desenvolvimento humano, pobreza e democracia: assuntos que não recebem o destaque devido pelos economistas e suas pobres e chatas teorias quando se trata de bem-estar. Talvez mais economistas devessem ter ido à conferência aprender que crescimento do PIB a qualquer custo não é tudo.

Contudo, não precisamos fumar tanta maconha quanto os montevideanos. A maioria dos jovens não nega uma marijuana. Apesar desse pequenino revés, acho que aprendi bastante em apenas cinco dias de Uruguai.

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Choque cultural

Poucas vezes antes tinha sentido fortemente um choque cultural. Talvez por ter nascido e crescido em meio a um choque cultural: sou de uma família coreana no Rio Grande do Sul participando de uma igreja luterana com forte influência germânica. Assim, sempre fui mais resistente aos choques culturais. Eu mesmo era e sou um choque cultural ambulante.

Mesmo em momentos como a Assembléia do Conselho Mundial de Igrejas, em que trabalhei com aproximadamente 140 jovens de TODAS as partes do mundo, não senti muito forte o choque. Estávamos todos trabalhando, tínhamos nossas diferenças, mas também não foram tantas relações de fato aprofundadas. E o óbvio também acontecia: pessoas com mentalidades mais parecidas se aproximavam mais, afinal a oferta de possíveis amigos era farta. Ano passado, quando fui à Suíça, as diferenças culturais inclusive me agradaram. Curiosamente, meu amigo suíço Daniel, que me hospedou, tinha uma mentalidade em muitos aspectos bastante parecida com a minha. O mesmo posso dizer de Tobias, amigo de Daniel, e de Alena, esposa de Daniel. Isso certamente explica também porque no final de uma semana parecíamos amigos de longa data. Senti-me mais em casa em Berna do que em São Paulo.

Certamente, meu primeiro grande choque cultural, mas não apenas cultural, foi minha mudança pra São Paulo. Mas muito de meu mal-estar em São Paulo estava associado às outras mudanças advindas: sair de casa, afastar-se da minha namorada da época, estudar como um cão no mestrado, círculo de amigos bastante restrito e, não menos importante, a disparidade estética média entre as mulheres paulistanas e as porto-alegrenses. Claro que há mulheres bonitas em São Paulo, mas não preciso dizer quem leva grande vantagem no placar quando falamos de média. E na verdade, aqui em São Paulo, continuo perambulando como um choque cultural. Dentro do Brasil, meu fenótipo é muito mais associado ao paulistano do que ao gaúcho. O sotaque (que é fraco mas às vezes aparece), a camisa do Grêmio e o chimarrão são motivos de espanto muitas vezes.

Apesar da minha resistência, da última vez que tive contato maior com estrangeiros, senti mais forte o choque. Recentemente, duas intercambistas da Igreja (Luterana) da Suécia estavam trabalhando em Santo André, cidade aqui ao lado. Elas eram muito divertidas, mas os escandinavos são notoriamente diferentes de nós. Não que os suíços ou alemães não sejam. Mas talvez por elas estarem em nosso território, as diferenças fiquem mais claras. Jenny e Elin, embora muito legais, me mostraram um pouco das absurdas diferenças de mentalidade de um povo etnicamente e homogêneo que vive em clima e instituições completamente diferentes das nossas. Era difícil entender ou digerir algumas coisas que elas diziam. Afinal, como entender que uma sociedade veja com naturalidade festas que ocorrem em saunas, com pessoas peladas e cervejas geladas? Talvez os brasileiros sejam apenas falsos conservadores hipócritas, mas a sensação de pertencer a um outro mundo foi grande, algo que eu sentira poucas vezes antes, embora tenhamos nos divertido bastante.

Eu e as suecas passeamos por São Paulo e fomos a um jogo do Corinthians com alguns outros amigos. Momentos em que conversamos bastante. Não eram como os 140 jovens na Assembléia, entre os quais eu podia procurar os que mais tinham cabeças mais parecidas com a minha. Não era como o Daniel na Suíça, que discutia teologia, política e economia comigo, além de ter visões surpreendentemente parecidas com as minhas em vários assuntos. Eu tive ótimas conversas com as suecas e foram dias realmente edificantes: acho que me dei bem muito bem com elas além de tudo. Mas eu não posso negar que senti um pouco do choque. Faz parte.